Um poema por dia (ou quase isso) – Dia 3

Tema: “erramos de sombra”
Sugestão de Lois Lancaster

Outono/Inverno

A alma outonal
visita antigas paisagens
onde folhas e ondas
dançavam
ignorando minha ansiedade.

Eu lembro da espera.
Eu lembro da longa espera.
E pensando em nós,
nos revisito.

O perfume dos cabelos escondidos.
as mãos suadas, renegando as luvas.
Nossos lábios salivantes
rachados pela temperatura.

Espíritos nus sob a lã escura
em busca de qualquer poesia,
de alguma outra verdade,
que nos fizesse possíveis

Penso nos passos
Ouço a crocância das folhas secas
Lembro da arvore infinta
que nos ouviu declamar todos Beats
e testemunhou todas as nossas juras.

Dizem que na nossa ausência
apodreceu e ruiu.
deixando um toco incomodo,
relutante, emergindo da terra.
E sua silhueta triste, tatuada
naquele chão onde a grama nunca cresceu.

Um tanto como nós,
Um tanto como esse
nosso sentimento inerte
cravado no peito
jazendo ao sabor do tempo.

Mas nós não deixamos marcas
Não deixamos nenhum legado.
Sucumbimos estragados
mas sem causar grandes estragos.

Penso.

Penso em nós
Nos outonos de nós.
No que ficou de nós
E concluo:
Acertamos de árvore
Mas erramos de sombra.

Diga

Um poema por dia – Dia 2

Tema: pessoas que falam a mesma língua mas não se entendem (metaforicamente ou não)
Sugestão do Zeh Fernando.

Ruídos de comunicação

Eu flerto com rima maluca
Ele responde em dialeto aramaico
Eu armo meu verso arapuca:
“Eu te amo”- no melhor grego arcaico

Ele pensa saca o que eu digo
Eu me iludo que o compreendo
Que bom seria entender-mo-nos falando
Tão bem quanto nos entendemos fazendo.

1 disse

Um poema por dia – Dia 1

Tema: Pum no elevador
Sugerido por Marlos Oliveira

25º andar

Ansiava, eu, pela viagem
Da terra rumo ao firmamento
E a contagem regressiva anunciava
O pouso da nave, ali, a qualquer momento.

Abriram-se as portas. Atropelou-me, a manada.
E chacoalhado pelo movimento, eu rodopiava franzino.
Puxou-me pela mão, minha mãe, irritada
“-Se mexe ou eu te largo aí, fiapo de menino!”

Em silêncio, os passageiros viajavam;
olhos para o chão, abstração dos artelhos
Eu, miúdo, seus rostos mirava
do meu ângulo, à altura de seus joelhos.

Aproximava-se, o nosso destino.
Eu percebi uma mudança no ar.
E quando eu já nem podia respirar
todos notaram o odor assassino.

A moça gorda, colou-se na porta
na esperança de salvadora brisa
O executivo levantou a gola
para filtrar o ar com a camisa.

A madame reclamava entre os dentes
“-Eta povinho mal educado!”
Entreolhavam-se, agonizando, os presentes
tentando encontrar um culpado.

Um velho tossia de quando em quando
feito um peixe que pulou do aquário.
“-Só mas um pouco, estamos chegando”
minha mãe dizia, agarrada ao rosário.

Tocou a sineta. “-Chegamos!”
vibrou com emoção, o velho sufocado
Saímos todos juntos, um bloco humano
com futum de lixo compactado.

Minha mãe, aliviada, agora ria
perguntando-se que fedentina era aquela.
Foi aí que eu, orgulhoso da picardia,
mostrei-lhe a minha mão amarela.

2 disseram

Bem…

eu tentei escrever algo sobre 2011, mas a única palavra que me me ocorre é “ok”"

E “ok” é uma paz sem fim.

Diga

Sem Título

Insônia,
jazz,
torpor,
violão

Mentiras brancas
com rimas de ocasião.

Diga

Equações Noturnas

{rivobanzo > minhocas na cabeça ⇔ ∄ sono ∈ Ana}

1 disse

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