Enquanto ele dorme

Eu me sinto segura demais esperando você para cair nas graças de um sentimento novo. Prefiro esses jogos de regras conhecidas. Não, eu não sou assim tão corajosa quanto se pode pensar. 

Melhor mapear as feridas abertas, as dores estabelecidas. Saudades padronizadas que já não machucam mais. Viver a ilusão encantada do príncipe perfeito. Parece bobagem, mas na ilusão sou eu quem seguro o chicote e bato, eu meço a forca, eu sei até onde ir na minha flagelação. E até onde inventar a poesia. Até onde adoçar a mentira.

Confesso, eu tenho medo do amor desconhecido, do amor imaculado que, aqui, ele me serve. Aceito pra matar a sede e por educação. E diante de tão delicado banquete, belisco apenas quando poderia me fartar ate não mais poder. Desculpe querido, não dá. Meu coração está enfastiado de outro amor, de um amor envelhecido, meio passado. De um amor meio queijo velho ou vinagre.

E ele baixa os olhos e recolhe as travessas plenas de sentimentos frescos e cheios de temperos por mim nunca degustados. Guardanapos.

Preservo-me na espera, contando os dias, as horas. Preservo-me na cápsula intocável do amor que prescreveu há tanto e minto para mim mesma que pode ser. Mumifiquei-me. Deixo-me o coração fossilizado protegido a um oceano de mim. Estará assim o sentimento a salvo, eu a salvo. Sei lá…

(Ele ronca baixinho, ele também espera, espera por mim. E na esperança, ele dorme e me perdoa).

E acaba sempre sendo o amor a melhor desculpa para não amar.

Turnberry, 2005

Reencontros

…verdade, eu não bebia nem fumava. e eu respeitava sua bobice lhe mandando embora antes da meia noite. eu tinha mais cabelos. eu também. usava boné. mastigava chicletes. rachávamos contas de dez reais. a gente era assim: desce aí! ou estou aqui. você tinha sempre uma desculpa. um violão. uma ligação. duas quadras a pé. minha janela olhando para sua janela. eu era mocinha romântica. eu tinha mais o que fazer. intimidade é mesmo uma merda. a gente pode rir. um brinde. você tem mistério. não sei o que você não vê. o que mudou em dez anos? vinte e oito. vinte seis. a gente se conheceu anteontem, não foi? há dez minutos. hoje eu bebo. e eu fumo. viemos de outros carnavais. vou lembrar seu aniversário. estarei longe. vem aqui. seu beijo ficou incisivo. sua mão mais arisca. frases sacanas. confissões de pé de ouvido. que bom que a gente cresce. já não sou pra casar. noivei. ainda acha liberdade sexy? você é linda. haveria de ser diferente? claro que não. desisti daquela história de convento. a gente pode ir para outro lugar. a gente pode o mundo. então, diz do que está rindo? da minha boca na sua barba.

Rio de Janeiro, 2003

Capítulo 1 – Antecipação

1.
 
Os pêlos de meus braços estavam eriçados e não era por causa do frio. Lembrei-me de minha mãe me mandando orar para espantar os arrepios. Ela respirava fundo, depois suspirava sonoramente e dizia: passa morte que eu tô forte! Hoje, aqui, assistindo o farol abrir e fechar inúmeras vezes, eu sei que me pareço demais com ela, parada diante do sinal aberto com medo que ele feche e me pegue desavisada no meio da rua. Olhando fixamente o bonequinho vermelho que me manda estancar, aguardando que ele abra e me dê autorização. Esperando para dar o passo, temendo dar o passo. Hoje é quinta-feira e já passa das duas da manhã. O sinal abre e fecha. De novo. Novamente. E as folhas caducas de uma amendoeira solitária são o único trânsito visível.
 
Entre atravessar e ficar ali, imóvel, aguardando apesar da insistência do sinal a ordenar que eu siga, a maturação da tática para não fazer de hoje – meu Deus, hoje já é hoje! – mais um daqueles dias onde, apesar da boa predisposição do destino, tudo falha. Já perdi a conta de quantas vezes falhamos. Falhamos na comunicação, falhamos na manipulação artesanal do tempo. Falhamos por não nos darmos conta de que as palavras e as horas são matérias primas assaz delicadas e requerem especial atenção – e mais – requerem muito mais que mero talento, que mãos habilidosas. Muito além de simplesmente polir a verdade até despí-la de seu agressivo manto, há que se lapidar a sinceridade no molde essencial do sentimento. Existem tantas maneiras de se ser sincero. Durante todo esse tempo, eu quis compor uma sinceridade integral, porém delicada, para meu sentimento, uma honestidade que não atingisse feito um soco no estômago como freqüentemente acontece, mas que fosse inalada feito um óleo essencial de olor quase imperceptível. E foram tantos anos maturando, compondo, escrevendo e destilando uma declaração de amor  perfeita que o atingisse quase como uma intuição. Neste momento, o sinal abriu pela quadragésima sétima vez e meus pés parecem haver-se fixado definitivamente naquele pedaço de chão.
 
Enfim, um carro esporte passa em alta velocidade movendo o ar em torno de mim, e então, eu noto que o relógio espetado no canteiro onde ainda não plantaram flores marca 02:47 e me dou conta da madrugada. Ele marca 12 graus, e me dou conta do frio e de que a chuva, antes rala, já fez do forte traço preto que uso sobre as pálpebras uma olheira soturna e entristecida. Ele mostra uma propaganda de cigarro, eu penso em fumar e aí lembro de que tenho tantas sacolas nas mãos que não seria capaz de meter a mão na bolsa ou acender o isqueiro sem me queimar. Além do mais, a cena já era estúpida o suficiente: eu, de terno e saltos, carregada de bolsas de supermercado, ensopada, respingada de lama, com a maquiagem destruída e cabelos empapados, assistindo o abrir e fechar do sinal por mais de 30 minutos sem coragem de andar e sem saber o porquê. E com muita vontade de fumar. E com muito frio. Pensando de onde veio a idéia de comprar aipo, algo que eu sequer gosto. Amaldiçoando os supermercados 24 horas ao invés de simplesmente pegar um táxi, sovar toda a tranqueira gastronômica na geladeira e tentar conter minha ansiedade com uma dose de single malt e meio Rivotril.
 
Não era para ser assim, não era para ter toda essa jovialidade patética. Mas, do momento que ele ligou dizendo “-Chego no dia 22 à noite” eu desamadureci. No momento em que eu que já quase não lembrava do timbre de sua voz a ouvi soar tão próxima e natural, as horas começaram a se arrastar, minhas mãos a tremer, meu coração a pregar-me peças, o ar a me escapar. Os colegas de trabalho questionam meu sorriso bobo e a minha dispersão em momentos onde a minha atenção seria essencial. De alguma forma, desatino ao sabê-lo próximo, material. Ao sabê-lo não mais as letras impressas em tinta azul ou a canção cafona que me anuncia suas palavras na tela ínfima do telefone. A premunição daquele “eu te amo” traduzido, enfim, numa linguagem nova e não-verbal. Coloco a língua para fora para beber a chuva e me dou conta que não sei mais o gosto do seu beijo.
 
Um taxista para, pergunta se eu estou bem e preciso que ele me leve. Faço sinal para que ele abra o porta-malas e arrumo as bolsas vagarosamente, tentando listar mentalmente todas as porcarias eu comprei. Não lembro. Indico um endereço que não é o meu. Um endereço muito mais longe que as duas quadras que me separam do meu apartamento. O endereço de uma amiga que eu não vou visitar. Abro as janelas para pegar um pouco de ar e secar meu cabelo. O motorista dirige rápido demais e eu peço que ele vá mais devagar para que eu possa apreciar a cidade. Ele me olha muito desconfiado, mas obedece. Pareço uma louca. Estarei?
 
O que há para se apreciar nessa cidade? – me pergunta. Como eu, ele também não é daqui. Ele pertence a algum lugar. Ele quer fazer dinheiro e voltar. E eu, quero o quê? Hoje eu quero que o Cara chegue predisposto, excitado. Eu quero que o Cara tenha entendido que me ama, que não adianta querer brigar, que faz tempo que eu faço parte. Hoje eu quero saber cozinhar tudo o que eu nunca soube, escolher o vinho corretamente, o perfume e o vestido exato. Hoje eu quero perder 5 quilos e parecer 10 anos mais nova. Hoje eu quero aquele cd de jazz que eu não comprei no mês passado e misteriosamente esgotou. Hoje eu quero entrar na cabeça do Cara para saber o que ele quer e ser. Mesmo que signifique não me ser. Oi?
 
Peço ao motorista que retorne, passo o endereço correto,  ele continua me olhando desconfiado pelo retrovisor mas não abre inquérito. Troca de pista tranqüilamente cruzando a avenida que parece morta. Peço o caminho mais curto e em 5 minutos estou na frente do meu prédio. O porteiro sai com cara de sono e me acode com as sacolas. Assino um cheque de valor absurdo sem dor. Olho-me no espelho do elevador com desgosto. Analiso aquelas bolsas cheias de ingredientes que não combinam com minha receita, com a receita de mim. Abro a porta e jogo tudo na cozinha. Preciso de um banho quente e um chá. Preciso me olhar no espelho e me reencontrar. Preciso de um cigarro. De alguns. O celular começa a tocar dentro da bolsa, não quero atender. Não quero. Eu quero me despir na sala de janelas abertas e caminhar até o quarto sentindo minha bunda balançar e confirmar-me o passar dos anos. O celular toca novamente. Quase dez anos se passaram, Cara. Eu tenho estrias e cabelos brancos. Será que ele se deu conta do tempo? Estará ele pronto para minhas rugas, para as impressões digitais das outras mãos que na sua ausência se ocuparam do meu corpo? Terá bom olfato para perceber os perfumes que ficaram para sempre em meus cabelos? Entenderá que a fidelidade da alma nada tem haver com desejos do corpo? Encaro o espelho e me vejo uma fruta apodrecida pelo tempo. Agora, é o telefone de casa que toca. Foda-se. Deixa cair na secretária. Vou para o chuveiro, abro um sabonete novo com cheiro de novidade, tento arrancar com uma bucha espessa a casca enrijecida que cobre minhas juntas e os últimos resquícios do verão que acabou. Lavar-me de tudo em mim que não foi por ele. Eliminar os vestígios e culpas de uma felicidade sem ele, mesmo sabendo que aquela pele morta que desce pelo ralo é na verdade o meu melhor bocado.

Todas as luzes estão apagadas. Eu caminho até a sala respingando minha nudez pelo corredor. Eu tenho uma nova mensagem.

“- Atende esse caralho, Vic! Tá dando, piranha?”

E a risada despudorada de Malena se espalha pela casa me fazendo por um momento me esquecer da ausência, da iminência da presença, do Cara e também de mim.

(São Paulo, 04/11/2007)

PH

“Concentrava-me o quanto podia nos sentimentos doces e levemente alcalinos. Memórias bobas, outras paisagens, canções, silêncios e palavras. Direcionava o pensamento para as amorosidades desta vida, na esperança que a azia cáustica e cheia de cólera, não acabasse por irromper-me corpo a dentro, corroendo também meu coração. Eu já lhes tinha concedido causar-me náuseas e abrir-me em úlceras, não ia permitir que roubassem também minha ternura.”

O Homem Nu

Despir-se inesperadamente era o jeito que ele havia encontrado de nunca se permitir estar completamente nu. Fazia de sua pele exposta um couro, uma casca. Um cofre onde ele achava que escondia a alma – era tão evidente que ele possuía uma. Ele tinha esse poder de fazer o ambiente parecer tomado por uma névoa estranha e fina, um lençol sedoso como o desejo, áspero como o constrangimento que, de repente, nos cobria da cabeça aos pés em autorização.

Indigo

Perguntou como eu me sentia. “Desbotada”, respondi um tanto aérea. Sorriu-me ainda um sorriso bege típico de quem compreende a fragilidade dos fixadores de cor dessa vida antes que mergulhássemos num profundo e tedioso silêncio. Não era possível desfazer o que estava feito, sabíamos. E talvez já nos tivessem puído demais para arriscar novos pigmentos sem que nos acabassémos desfiados em tiras.

Cartas para a Finlândia

Ah… a luz do norte tinha algo que eu não sabia explicar. Tinha um ouro, uma purpurina. Vinha como um calor morno que dourava a pele quase sem querer. E trazia uma saudade refrescante que se parecia muito mais com uma brisa que como uma dor.

Era uma liberdade que não aparecia nas fotos porque não cabia em caixa de sapatos.

Era um tempo de águas claras e relações rasas. Risos fáceis e âncoras leves de içar.

Um beijo,

Ana

Xote

Dançar tinha todo um outro significado. Dançar era não tentar ser forte, era não precisar ter razão. Dançar era abdicar de pose e despir-me de toda atitude porque na dança não existe negociação: o cavalheiro conduz, a dama acompanha. Se assim não for, não tem dança.

Eu girava ali, de par em par. Eles eram timoneiros e eu era uma nau tonta, veleiro de inúmeros capitães. Entre brisas e ventanias eu fluía, flutuava. Eu viajava sem me querer dar conta da cartografia do salão, de todos aqueles oceanos quase sempre muito rasos, muito serenos, daqueles horizontes que se estendiam pela eternidade de uma canção.

Brochura

“Fiquei pensando naquela mensagem. Aí, cheguei em casa, subi num banquinho e desenterrei do alto do armário aquele volume de mais 300 páginas que já começam a amarelar do tempo. Olhei a data do primeiro escrito e sorri. Aquele tinha sido um ano muito bom. Folheei delicadamente a brochura, li alguns versos em voz alta e percebi que eu também sinto muita falta da minha poesia. E da pessoa que eu me tornava toda vez que queimava os mapas da razão e me enveredava pela loucura de seus caminhos mal sinalizados e por isso, tão incríveis.”