Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Correspondência Violada

Querido Breno,

Andei lendo suas palavras e me senti na obrigação de lhe dizer que o mundo virtual é simplesmente, O Mundo. O muro caiu faz tempo. Resta-nos aceitar e falar sobre as nostalgias do tempo em que carregávamos no corpo uma paciência natural, sem percebermos que era ela um dom; um dom tão simples que não precisava de aprendizado, nem desenvolvimento, nem concentração.

Engano-me, de tempos em tempos, esperando que o correio me traga os artigos chineses de noventa e nove centavos que compro pelo Ebay.

Beijos,

Ana

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Com lápis e borracha

Escrevi umas linhas. E elas eram tanta verdade que decidi que podia poupar as pessoas do incômodo de vê-las ditas.

Apaguei tudo e menti de levinho. Sem culpa nem ressentimento.

Menti com a cara mais lavada do mundo, para manter os eu amo de coração aquecido e aconchegadamente ignorantes.

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Sangria

Preciso depurar as loucuras que andam envenenando minha alegria. Sobra ímpeto, faltam as palavras.

Não chega a ser uma dor, mas é um contínuo desconforto.

Fico sempre refém das coisas que sinto e não sou capaz de traduzir.

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Union Square

Abriu as pesadas cortinas púrpura e a luz inundou o quarto com a atmosfera de uma Nova York primaveril. Ficamos ali abraçados muito juntos, olhando a praça de cima por longos minutos. Murmurei num suspiro que havia sido injusta com a Cidade. A Cidade era bela assim, iluminada. E as pessoas pareciam muito felizes banhadas pelo dourado pálido do sol de abril. Permanecemos sentados no parapeito ainda um pouco, fazendo planos como dois meninos que discutem o que vão ser quando crescer. Às vezes, ele fechava os olhos e com as mãos trêmulas passava os dedos pelos meus cabelos. Então dizia um eu te amo dolorido que doía nele e que doía também em mim. Eu segurava o choro pensando na fragilidade daquele instante; cada segundo a mais era também um segundo a menos.

Talvez o grande amor fosse, no fundo, apenas aquilo: a mágica do momento. Somente o saber, ao acordar, que eu não havia roncado e que naquela noite ele não tinha tido pesadelos. Beijos lascivos sem escovar os dentes. Champanhe antes do café da manhã.

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Epílogo

Foi simples assim. Depois de toda minha prosa e tanta poesia, tudo acabou exatamente nas palavras que ele deveria ter escrito mas não escreveu. Eu esperei um, dois, três dias. Por fim, o silêncio consumiu últimos resquícios daquele sentimento já muito corroído e maculado pelo tempo. Eu ainda tentei salvar, eu ainda insisti em regar a planta seca, mas não deu. Morreu.

Curiosamente, ao constatar sua defunteza, não fiquei triste. Até disse para uns e outros que senti raiva, mas menti. Eu não sei o que eu senti. Acho que eu não senti nada.

Apenas desperdicei uns minutos olhando para ele. Depois juntei os fios de cabelo que cuidadosamente recolhi da minha cama e joguei na privada. Aí, passei suas camisas, dobrei suas cuecas. Empacotei as reminiscências daquele sonho cansativo e escrevi algo que era para ser um poema, mas não foi.

Despachei a trouxa. Deixei de ser trouxa. Dei a descarga no vaso e na minha alma.

Não havia outra saída. Alguém tinha invadido o silêncio que ele fez com a surpresa de vozes desconhecidas. Eu havia finalmente compreendido que amar um amor que me privava de ser amada não valia a pena.

O fim era o início de uma nova liberdade.

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Diálogos

- Nunca pensei que você fosse desse tipo que se importa com que os outro dizem.
- Eu só me importo quando eles têm razão.

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Sobre fins

Então livrei-me finalmente daquela metade ingrata
e deu-se que espantosamente voltei a ser-me inteira.

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Pequena confissão

Estou sentindo falta de escrever aqui.

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Fogo Manso

A pedra esfregou na rodinha metálica e o isqueiro acendeu de primeira. A chama, então, queimou vagarosamente a ponta do cigarrinho slim. Dei um trago demorado. E foi a primeira vez em meses que eu acendi um cigarro com a sincera intenção de desgustá-lo. Fumar sempre fora uma válvula de escape. A chaminé imaginária para liberar a pressão da vida a comprimir o meu espírito.

Era assim: eu acendia o cigarro com as mãos sempre trêmulas. Às vezes perdia o controle e os fósforos se acabavam pelo chão. Eu tentava apaziguar meus dilemas no crepitar da brasa; aspirava a fumaça tóxica e me intoxicava. Daí soltava uma baforada, soprava a ansiedade para fora do corpo e deixava as cinzas pelo chão. Voltava a mim na ilusão de ter-me carbonizado os problemas. Normalmente eles ainda estavam lá fazendo pouco da minha inocência.

Não sei ao certo o que me deu de colocar o maço na mochila. De catar com as pontas dos dedos o rolinho magricela e colocá-lo sedutoramente entre os lábios. Surpreendo-me com minhas próprias pantomimas. Conto-me que mudei nesses gestos que ninguém percebe e que nem sempre eu compreendo.

Diferente do habitual, hoje, engolir a fumaça e deixá-la corromper os meus pulmões nada mais era que um momento masturbatório e delicadamente masoquista; o prazer de dolorosamente existir sem maiores consequências; de desperdiçar longos minutos soprando argolas etéreas pelo ar. De debruçar-me na sacada e permitir à brisa úmida dos trópicos beijar por alguns instantes a pele tépida dos meus braços nus.

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Ceticismo

Quando peço verdades,
tu me vens com teus dilemas;

E quando quero discurso,
perpetuas teu silêncio;

Mendigo certezas,
tu me dás estratagemas;

Confusa, contento-me
com o que nem sei se tenho.

Preciso saber,
mas não queres me contar.

Quero entender,
mas não tens explicação.

Inconvicto,
tu me deixas muito solta.

Atormentado pela dúvida,
o meu amor te escapa.

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