Gato escaldado
Perguntou-me de você e eu, feito um gato escaldado, pulei e cuspi uma resposta automática. Às vezes, eu esqueço que o tempo caminhou e nossos círculos de convivência foram se desenlaçando. Nossas interseções, hoje, não passam de linhas tênues que se cruzam no último ponto possível de contato. Ele queria saber se você é um bom profissional. Eu disse a verdade: sim, muito bom. E o assunto morreu dissolvido na histeria educada e sem noção causada pela necessidade de um keynote bem organizado. Tornei-me essa abóbora corporativa e os keynotes me deprimem. Fosse ele alguém mais familiar com a nossa história, teria facilmente percebido, antes mesmo de dizer a quarta letra da sua etiqueta nomesobrenome, que minhas bochechas se haviam ruborescido e minha respiração estava completamente fora de controle. Não sei você, mas quando alguém se refere a mim assim, por nomesobrenome, eu me sinto um número. A verdade é que ele notou sim a alteração imediata no meu comportamento, mas contentou-se em analisar somente meu apavorado pulo para trás e assim, ignorou todas as outras evidências e concluiu que o motivo da reação era um motivo pequeno e mundano. Foi quando notei como o intrincado roteiro da nossa comédia se tinha tornado um argumento banal. Fiquei triste e ri. Ninguém quer saber o que acontece depois dos créditos, quando a música acaba e as luzes se acedem. Mas a verdade é que, infelizmente, a vida real segue após o “Fim”. Eu segui, você seguiu. E acredito que a vida tenha ficado mais leve para nós dois. Quase sempre, ao ouvir seu nome, eu entro em pânico. Sempre acho que o destino vai fazer uma das suas trapaças e colocar nossos caminhos para se cruzarem novamente. Eu sinto muita saudade e isso me deixa profundamente vulnerável – não posso dar-me ao luxo nem mesmo do menor gosto de presença. Eu nunca mais me apaixonei, o que é um pessimo sinal. Um sinal que me faz crer que mesmo depois de anos, quando o assunto é você, eu não posso confiar muito em mim. Tem vezes que eu quase lhe esqueço, até que alguém me lembra. Dói por umas horas, de vez em quando a dor dura uns dias. E da mesma forma que surgiu, a dor passa. Eu achava que tinha cavado um buraco na minha alma quando decidi que era hora, que eu estava cansada, que para mim chegava. Hoje, prefiro crer que abri uma vaga – que ainda está vaga. Ele diz seu nomesobrenome, eu vejo uma lacuna na minha vida onde cabe exatamente aquele número de letras. Arrepiam-se os pelos da minha nuca, o coração ameaça sair-me pela boca. Respiro fundo e agarro-me nessa difusa esperança de que as letras, um dia, sejam outras.
2 disseramModus Operandi
De tempos em tempos, eu surto. Teço teorias monumentais. Considero o macro, o prazo, o micro, os assets, a possibilidade de um Tsunami, o budget e a influência da vida sexual dos envolvidos no desenrolar do processo. Verbalizo questionamentos sobre o grupo e sobre personalidades individuais quando minhas dúvidas, em sua maioria, dizem respeito a mim mesma.
Bla bla bla bla bla bla. Por quê? Por quê? E,se? Mas…
Só acaba quando cai a ficha de que eu não estou fazendo o menor sentido. De que não tem bicho no armário nem embaixo da cama. De que não tem jeito de entender todos os motivos e de que há coisas que não me cabe saber.
Nessa hora, eu me dou um ou dois tabefes na cara e me ordeno: cala a boca e faz o seu, neguinha!
(Muitas vezes, merecia uns tabefes de terceiros)
Enfim, eu me calo. E aí eu volto a ser um colaborador funcional dentro da organização.
4 disseramContra-mão
O sinal fecha. Eu olho. Ele desvia. Eu olho de novo. Ele baixa o resto de janela que permanecia fechado e me diz:
-Sorry girl, I’m gay.
Acho que ainda não me habituei com o cosmopolitismo paulistano. Sorrio e respondo:
- Does it make you less worthy of a look?
Ele ri sem jeito. O sinal abre. Ele segue e eu também sigo, só que na direção oposta.
Sobe BG. Corta.
Muitas vezes, as cenas da vida real superam de longe as cenas que eu escrevo.
DigaIntervenção
Peguntou-me o que era, então, estar em paz. Bebi um gole curto de vinho procurando no fundo da taça uma definição que fizesse sentido. Sem sucesso, acabamos mudando de assunto e partindo para outras filosofias.
No caminho de casa, eu ainda não sabia definir o que era estar em paz mas pensava insistentemente naqueles dias ensolarados e extremamente frios, quando eu não precisava parecer nada e isso me permitia ser tudo o que eu quisesse.
DigaSala 309
Entrei na antesala e senti um cheio com um tom meio laranja pastel e este era um cheiro bom. Combinava com a decoração e com a meia luz discreta. Um aparelho de som de design arrojado tocava alguma coisa que não me recordo mas gostaria que fosse algo com violinos delicados que eu não conseguisse identificar. Espero que não fosse Enya. Abriu a porta da sala principal. Era uma sala ampla, de janelas grandes e bem iluminada com duas cadeiras circulares de frente para porta, um divã ao fundo, que uma terceira cadeira diametralmente oposta às outras duas onde ela se sentou. Ela não influenciou de nenhuma forma minha escolha de onde ficar, eu sabia que tinha algumas rápidas decisões a tomar; encarar ou não o olhar? Encurtar ou não a distância. Preferi a intimidade do olhar em detrimento a da proximidade embora soubesse eu que ia passar a maior parte do tempo olhando para cima ou para minhas mãos sempre gesticuladoras. Eu havia optado por uma distância que era incomodamente grande, maior que a de uma entrevista de trabalho por exemplo. Senti vontade de arrastar a cadeira para frente algumas vezes, mas me contive achando que todo aquele tapete entre mim e ela era um simbolismo pertinente e uma proteção necessária – para ela e para mim.
(Antes que eu esqueça, não acredito em terapeutas que ouvem New Age, me desculpem.)
Ela sentou-se e sorriu. Eu sorri de volta. Fizemos uns cinco segundos de silêncio. Não era a primeira sessão de terapia da minha vida mas acho que pela primeira vez eu estava realmente aberta a ela. Eu sabia que eu tinha que começar a falar; por onde? Honestamente não lembro exatamente a primeira coisa que eu disse, mas sei que logo nos primeiros minutos eu falei que estava ali porque, por muito tempo, escrever me havia sido suficiente. Escrevendo eu quase sempre encontrava meus motivos e aí era decisão minha solucionar ou não meus problemas. Só que, de repente, eu não consegui mais escrever. E eu sabia que isso acontecia porque tinha algo em mim que eu não queria encarar. E ela me perguntou o que era e eu disse que era essa pergunta que eu esperava que ela me ajudasse a responder.
Ela ainda voltou umas duas vezes nisso: o que é? Mas eu, realmente, ainda não sei. Ou talvez eu ainda não tenha encontrado as palavras que me permitirão saber dizer.
DigaSumiço
Se eu sumir mais do que estou sumida, pode ser que você me encontre aqui : http://cowbird.com/author/anamangeon
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