Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de May, 2002

Casa Abandonada

As roupas nunca mais se espalharam pelo chão. As cortinas nunca mais se abriram. Só há poeira e o ar viciado é morno e ácido.

Olhamos-nos, não temos nada a dizer. Estamos velhos, fracos, magros. Quando meu tricô cobre todos os móveis da sala, eu desmancho e faço outra vez. Meio torto, afundado na poltrona rota, ele corta as unhas do pé. Às vezes suspira ou tosse. Por vezes, estalam os tacos do chão. Outras são nossos ossos.

Já nos cortaram a luz, o telefone. O lampião cria uma atmosfera amarelada, a chama dança. Às vezes ouvimos as sombras, mas nenhum de nós responde. Desaprendemos a falar.

Lá fora a correspondência já transborda da caixa do correio. Os vizinhos jogam lixo no nosso quintal. A grama alta bloqueou a porta de entrada. Nossas flores crescem desordenadas, selvagens e sem perfume. Já nos ferimos demais nos espinhos do nosso roseiral.

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