A pé, de madrugada, na contra mão do mundo

Têm vezes que eu preciso respirar profundamente os orvalhos impregnados de fuligem, maresias, baseados escondidos. Ser alvejada por gotas de ares condicionados. Fincar minhas mãos miúdas nos bolsos da calça e olhar para o chão – que é olhar para dentro – e reencontrar meus motivos e verdades.

Têm vezes que eu preciso chegar em casa caminhando na contra-mão, pelo meio da rua, jogar longe uma ponta de cigarro e crer que eu tenho sim algo com o Diabo que me desobriga dessa mania que carregamos de acreditar que temos que nos adaptar. É inútil tentar, eu não me adapto. Nasci sem esteio.

Têm vezes que eu preciso refletir porque eu optei pelo mundo, até descobrir que esse anseio de mundo é o pavor de não me caber em mim e sufocar-me plena de mim mesma ou, se não, de não me ser suficiente matéria-prima ao meu desejo de entender a alma das gentes e morrer à míngua. Preciso de espaço, de ares desconhecidos, significações novas para velhos vocábulos, línguas que eu ainda hei de conhecer, sensações e sentimentos que inda hei de compreender. Não é coragem o que me faz não resistir e partir, como se enganam. O que me move por esses mares – que sei, um dia, serão terras e ares – é o medo. Eu tenho medo de morrer tendo visto muito pouco. Eu tenho medo de morrer sem ter escrito minha história do meu jeito.

Desculpem-me se o que os aprisiona é o que me liberta.

© 2003, ana. All rights reserved.

Diga

No comments yet. Be the first.

Leave a reply