Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de August, 2003

Microcontos

Cousas que me contaram

Já muito idosa, a serpente revelou que o primeiro indício da sem-vergonhice que dominaria todos os homens do mundo manifestou-se no momento em que Adão, analisando Eva com um pouco mais de cuidado, concluiu que pecado era deixar de provar da maçã.

Sobre Bebedeiras e outros Porres

Penso que os primeiros goles a gente aprecia feito licor. Só que acaba que os tragos vão se avolumando de maneira que viram tanta embriaguez que começamos a desprezar os sabores para nos ater às dores de cabeça, a nos esquecer da delícia que é inebriar-nos por prazer e não por necessidade.

Dicionário Pessoal da Ana

distância sf 1.medida da vontade que se tem de ir
tempo sm 1.medida da vontade que se tem de ficar

Realidades Paralelas

Essa história terminaria diferente caso seus pais tivessem sido um pouco mais generosos nas suas escolhas ou caso Hidalgo, depois de passar três horas contemplando a moça ruiva, não tivesse decidido que Mirtes era nome de bisavó.

Encontro às escuras

Pensavam-se cegos até que descobriram o amor em braile.

Interurbanos

Atendeu o telefone sabendo que a distância era o pior de todos os enganos.

Bilhete

Na geladeira, o bilhete dizia: na minha ausência, não me coma.

Descalça

Pensava que ele era meu número até perceber o quanto apertava meus calos.

Incêndio

Cansada de sua sina atirou-se do cigarro a brasa triste, e se escondeu nas molas do meu colchão.

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Seis Letras

Sem dúvida eu poderia esperar. Eu tinha tempo. Eu poderia esperar uma eternidade, até. Mas, não sei se foi a luz ou se foi a arrumação dos espelhos, mas a coisa é que de repente eu me vi os olhos cabisbaixos e mais incomodados que deveriam. Olhavam para as pontas dos meus sapatos que batucavam no chão um sapateado arritimico. Tudo muito calmo, quase silêncioso com o respeito de quem vela o sono de quem dorme no leito de vultosos edredons brancos. Nossa cama era uma nuvem. Nuvens voam. Mas nossa cama permanecia estática a desafiar o tempo, estava acomodada ali com seus pés de palito e almofadas ocre. Ele tinha pesadelos. Sempre tinha pesadelos. E eu sabia que uma hora ele procuraria minha mão para poder acordar com a certeza de que estava seguro, de que eu era a sua casa. Eu conhecia todos nossos rituias de despertar, nossas coreografias, o nosso beijo era o mesmo todas as manhãs. Todas as manhãs havia o cheiro do café que ele não bebia. Todas as manhãs a mão dele tateava em busca da minha, entrelaçavam-se os dedos e ele abria os olhos e ria e eu lhe beijava a testa depois a boca. Por fim ele sorria e levantava nu para abrir as janelas e dissolver a penumbra dourada que eu tinha composto para ele cumplice do o sol e das cortinas.

Hoje, eu percebi que tinha esquecido as janelas abertas porque olhava meus olhos. Eram sulcos profundos e negros a contornar-lhes as órbitas. Eu não ia mais fechar as cortinas O sol atacaria os olhos dele a perturbar-lhe a visão e ele indócil tatearia em vão no escuro buscando minha mão ausente. Do alto da nossa nuvem talvez ele percebesse minha letra nebulosa pintada em batom marrom no espelho, a gravar para sempre nas nossas vidas as seis letras que precedem todas as separações.

Cansei.

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