Seis Letras
Sem dúvida eu poderia esperar. Eu tinha tempo. Eu poderia esperar uma eternidade, até. Mas, não sei se foi a luz ou se foi a arrumação dos espelhos, mas a coisa é que de repente eu me vi os olhos cabisbaixos e mais incomodados que deveriam. Olhavam para as pontas dos meus sapatos que batucavam no chão um sapateado arritimico. Tudo muito calmo, quase silêncioso com o respeito de quem vela o sono de quem dorme no leito de vultosos edredons brancos. Nossa cama era uma nuvem. Nuvens voam. Mas nossa cama permanecia estática a desafiar o tempo, estava acomodada ali com seus pés de palito e almofadas ocre. Ele tinha pesadelos. Sempre tinha pesadelos. E eu sabia que uma hora ele procuraria minha mão para poder acordar com a certeza de que estava seguro, de que eu era a sua casa. Eu conhecia todos nossos rituias de despertar, nossas coreografias, o nosso beijo era o mesmo todas as manhãs. Todas as manhãs havia o cheiro do café que ele não bebia. Todas as manhãs a mão dele tateava em busca da minha, entrelaçavam-se os dedos e ele abria os olhos e ria e eu lhe beijava a testa depois a boca. Por fim ele sorria e levantava nu para abrir as janelas e dissolver a penumbra dourada que eu tinha composto para ele cumplice do o sol e das cortinas.
Hoje, eu percebi que tinha esquecido as janelas abertas porque olhava meus olhos. Eram sulcos profundos e negros a contornar-lhes as órbitas. Eu não ia mais fechar as cortinas O sol atacaria os olhos dele a perturbar-lhe a visão e ele indócil tatearia em vão no escuro buscando minha mão ausente. Do alto da nossa nuvem talvez ele percebesse minha letra nebulosa pintada em batom marrom no espelho, a gravar para sempre nas nossas vidas as seis letras que precedem todas as separações.
Cansei.
© 2003, Ana Mangeon. All rights reserved.
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