Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de October, 2003

Sobre perfumes e sabores

Uma vez, eu era criança ainda, perguntei a minha mãe qual era o gosto do pêssego. E ela me fez cheirar um pêssego. E disse que tinha o gosto do cheiro. Depois eu mordi, e era verdade.

Ontem, eu não dormi. Não dormi porque a memória por alguma razão dessas razões que não se sabe, espalhou seu cheiro pelos cantos do meu quarto. E eu, entendendo naquele perfume seu gosto, senti muita fome de você.

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Giovanni

Quem o conheceu ainda hoje me pergunta o que é que eu fazia com ele. Eu sei, é difícil entender. Muita gente diz que ele era só um menino estúpido numa embalagem bonita. E era quase sempre.

Giovanni falava alto e com as mãos e me explicava que parecia ríspido muitas vezes, mas não queria ser. Culpava o sotaque. A verdade é que ele era ríspido sim, mas não era nada que se eu levantasse minha voz um pouco não mudasse de tom. Giovanni era grande, bruto, mas quando eu dizia cala a boca ele se sentava como uma criança de castigo e pedia desculpas com as palmas das mãos unidas como as de um menino que reza sua penitência.

Todos vinham me falar das minhas qualidades antagônicas aos defeitos dele. Eu nunca respondi. O lado bom era segredo nosso.

Eu me limitava a sorrir porque entre nossas quatro paredes, na nossa cama de solteiro de lençóis azuis, Giovanni era doce, nunca desviava os olhos dos meus olhos, nunca dormia antes que eu adormecesse. Ele era sim um inferno da porta pra fora, mas ali, sozinho comigo, eu era o seu bem mais importante, meio mulher, meio mãe. Ele era o vigor que eu já não tinha, eu era a paz que ele procurava.

Quando me irritava demais e eu me escondia no meu quarto, esmurrava aos berros minha porta até que eu abrisse. E antes que eu o mandasse embora me apertava contra seu corpo como se eu tivesse mesmo para onde fugir. E eu, que já não era quase nada, que era mesmo um farrapo de gente, ficava ali sufocada, esperando que eu afrouxasse os braços e me deixasse respirar. Depois ele me comprava o perdão com cerejas frescas.

Ninguém entendia a razão de eu continuar me deitando todas as noites com Giovanni porque ninguém sabia quantas eu acordava com ele chorando me olhando dormir e quando eu perguntava o motivo ele dizia que era porque me amava.

A obsessão dele dizia tudo que a minha loucura precisava ouvir.

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Manoela

Manoela acordou atrasada, talvez tenha desligado o despertador sem sentir. Levantou esfregando os olhos, colocou os óculos mas não conseguiu enxergar a hora no relógio. Olhou por cima das lentes e viu que era meio dia. Foi para frente do espelho e aí entendeu que agora exergava sem os óculos melhor que com eles. Se olhava com atenção. Olhava tudo em volta com atenção e tudo tinha uma cor de por do sol na primavera, tudo tinha adquirido um tom meio laranja, meio magenta. Antes tudo tendia um pouco para o azul. Manoela enfim não precisava mais daqueles óculos, e por isso se animou em pintar um pouco os olhos antes de sair.

Achava curioso que as pessoas agora sorrissem sem propósito e sentia uma vontade incontrolável de chamar todas pelo primeiro nome, de dar bom dia. Começou a manter a casa sempre cheia de flores. Incomodava o eterno fechar das cortinas. Manoela, aprendeu a comer luz.

Nunca mais acordou atrasada porque não precisava mais do relógio para despertar. O corpo sentia a aurora. E ela tomava longos banhos de banheira, vestia jeans, tênis e camiseta e ia para a faculdade de filosofia. Depois, almoçava um sanduíche e estudava francês segundas e quartas, alemão terças e quintas. Às sextas tomava cerveja ou ia o cinema. Aos sábados procurava uma cachoeira e a noite dançava até que fosse domingo. Nos domingos, Manoela acordava tarde e ia para cozinha preparar seu prato preferido, depois estudava. Se os dias tivessem mais horas, Manoela daria conta de todas elas. O tempo tinha se tornado seu aliado, ela queria fazer, ser, muitas coisas.

Dona Mirian estranha a menina não passar mais longas horas trancada no quarto. Não entende aquelas flores na janela, as revoadas de borboletas. Dona Mirian acha que Manoela está usando drogas. Dona Mirian não sabe que Manoela tem preservativos na carteira e que não vai mais a igreja não porque não tem mais tempo, mas porque não tem mais fé. Dona Mirian quer levar Manoela ao psicólogo. Manoela não diz, mas acha que Dona Mirian precisa de terapia.

Dona Mirian conversa todas as noites com seu Irineu na cozinha. E Manoela todas as noites se esconde atrás a porta para ouvir. Seu Irineu ri de Dona Mirian, ele acha que Manoela arrumou um namorado. Ele acha que Manoela está apaixonada – seu Irineu não sente ciúmes – e torce para que um dial ela faça paella e traga o seu amor para almoçar em casa.

Manoela sacode a cabeça sorrindo. Seu Irineu conhece muito bem a sua nova paixão. Faz 20 anos ela circula incólume pelos corredores daquela enorme casa azul de poucas janelas e grades no portão.

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Ana do Rio de Janeiro

Para quem quer saber que eu sou,
Eu sou Ana
Ana que perdeu o rumo.
Ana que largou a guia.
Ana que saiu do prumo.
Ana Marítima. Ana Legítima.
Pra quem quer saber quem eu sou,
eu sou Ana

Ana da noite e do dia.
Ana do ceticismo e da magia.
Ana do silêncio e da palavra.
Sou Ana, algoz e escrava.

Ana da dúvida e da certeza.
Ana da pantomima e da franqueza.
Ana da indiferença e da simpatia.
Sou Ana, momento e nostalgia.

Ana da luz e do breu.
Ana da posse e do teu.
Ana da escuridão e do espelho.
Sou Ana, preto e vermelho.

Ana do murmúrio e do grito.
Ana do repugnante ao mais bonito.
Ana do desprezo e do desejo.
Sou Ana, punho e beijo.

Ana eu sou,
Ana da rota incerta.
Ana da direção errada.
Ana de Norte a Sul.
Ana de Recife a Istambul.
Ana do mundo inteiro.

Eu sou Ana do Rio de Janeiro

Ana que foi covarde.
Ana que sentiu saudade.
Ana Letárgica. Ana Nostálgica.

Para quem quer saber quem eu sou,
Eu sou Ana
Ana que fugiu da dor.
Ana que já voltou.
Ana que desceu na lama.
Ana de sentir dó.
Ana de toda cama.
Ana de um amor só.

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Reflexiva.

Apague por favor as luzes,
esse silêncio não combina com a iluminação.

Acendamos um lampião, uma lareira.
(Faz sempre tanto frio aqui.)
Esqueça as palavras que eu esqueço os dilemas.
Vamos brincar com as sombras que nos habitam, nosso cinema.

Contemos os dias riscando as paredes do lar, do cárcere.
Esqueçamos de comer, de beber.
Esqueçamos de parecer e sejamos.
Sejamos o que você quiser que eu seja,
o que eu queria que você fosse.
Descubramos a nossa outra face.
Nossas duas caras, vamos dar  a tapa.
Deixemos as camas de lado, repousemos no chão,
no teto, encostados nas paredes.
Façamos previsões, acabemos com as provisões.

Flagelemo-nos.
Paguemos nossa alforria.
Compremos nossa alegria.

Iludemo-nos.
Inventemo-nos.
Invertamo-nos.
Entendamo-nos.

Recriemo-nos.

E depois, apartemo-nos.

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Almoço e jantar

Não importavam os paêtes, os decote, a meia fina. Nem a meia luz, nem a boa música, nem o perfume caro. Não importava ao dimmer, o foie-gras, a alcachofra. Problema se a champanhe custou três zeros! Ele não ligava para todo aquele mise-en-cene, para todo aquele chantilly. Por ele, os morangos dela irão mofar na geladeira.

Amor para ele é de jeans e camiseta, e é samba ou é bossa. Amor tem mesmo é que ter ranço de pele, e que seja à luz do dia, à luz da lua ou num canto escuro. Amor para ele tem hálito de cerveja e uma leseira de feijoada sendo digerida.

Ele chega sabendo o mis-en-place. Ele serve o vinho. Ela acende as velas e cobre as coxas com o guardanapo de linho.

Ele conversa, ela beberica com elegância e se insinua.

Mal sabe ela que tudo que ele queria agora ele era enfiar a cara numa manga espada e depois beijá-la com fiapos nos dentes.

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