Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Almoço e jantar

Não importavam os paêtes, os decote, a meia fina. Nem a meia luz, nem a boa música, nem o perfume caro. Não importava ao dimmer, o foie-gras, a alcachofra. Problema se a champanhe custou três zeros! Ele não ligava para todo aquele mise-en-cene, para todo aquele chantilly. Por ele, os morangos dela irão mofar na geladeira.

Amor para ele é de jeans e camiseta, e é samba ou é bossa. Amor tem mesmo é que ter ranço de pele, e que seja à luz do dia, à luz da lua ou num canto escuro. Amor para ele tem hálito de cerveja e uma leseira de feijoada sendo digerida.

Ele chega sabendo o mis-en-place. Ele serve o vinho. Ela acende as velas e cobre as coxas com o guardanapo de linho.

Ele conversa, ela beberica com elegância e se insinua.

Mal sabe ela que tudo que ele queria agora ele era enfiar a cara numa manga espada e depois beijá-la com fiapos nos dentes.

© 2003, Ana Mangeon. All rights reserved.

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