Manoela
Manoela acordou atrasada, talvez tenha desligado o despertador sem sentir. Levantou esfregando os olhos, colocou os óculos mas não conseguiu enxergar a hora no relógio. Olhou por cima das lentes e viu que era meio dia. Foi para frente do espelho e aí entendeu que agora exergava sem os óculos melhor que com eles. Se olhava com atenção. Olhava tudo em volta com atenção e tudo tinha uma cor de por do sol na primavera, tudo tinha adquirido um tom meio laranja, meio magenta. Antes tudo tendia um pouco para o azul. Manoela enfim não precisava mais daqueles óculos, e por isso se animou em pintar um pouco os olhos antes de sair.
Achava curioso que as pessoas agora sorrissem sem propósito e sentia uma vontade incontrolável de chamar todas pelo primeiro nome, de dar bom dia. Começou a manter a casa sempre cheia de flores. Incomodava o eterno fechar das cortinas. Manoela, aprendeu a comer luz.
Nunca mais acordou atrasada porque não precisava mais do relógio para despertar. O corpo sentia a aurora. E ela tomava longos banhos de banheira, vestia jeans, tênis e camiseta e ia para a faculdade de filosofia. Depois, almoçava um sanduíche e estudava francês segundas e quartas, alemão terças e quintas. Às sextas tomava cerveja ou ia o cinema. Aos sábados procurava uma cachoeira e a noite dançava até que fosse domingo. Nos domingos, Manoela acordava tarde e ia para cozinha preparar seu prato preferido, depois estudava. Se os dias tivessem mais horas, Manoela daria conta de todas elas. O tempo tinha se tornado seu aliado, ela queria fazer, ser, muitas coisas.
Dona Mirian estranha a menina não passar mais longas horas trancada no quarto. Não entende aquelas flores na janela, as revoadas de borboletas. Dona Mirian acha que Manoela está usando drogas. Dona Mirian não sabe que Manoela tem preservativos na carteira e que não vai mais a igreja não porque não tem mais tempo, mas porque não tem mais fé. Dona Mirian quer levar Manoela ao psicólogo. Manoela não diz, mas acha que Dona Mirian precisa de terapia.
Dona Mirian conversa todas as noites com seu Irineu na cozinha. E Manoela todas as noites se esconde atrás a porta para ouvir. Seu Irineu ri de Dona Mirian, ele acha que Manoela arrumou um namorado. Ele acha que Manoela está apaixonada – seu Irineu não sente ciúmes – e torce para que um dial ela faça paella e traga o seu amor para almoçar em casa.
Manoela sacode a cabeça sorrindo. Seu Irineu conhece muito bem a sua nova paixão. Faz 20 anos ela circula incólume pelos corredores daquela enorme casa azul de poucas janelas e grades no portão.
© 2003, Ana Mangeon. All rights reserved.
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