Giovanni
Quem o conheceu ainda hoje me pergunta o que é que eu fazia com ele. Eu sei, é difícil entender. Muita gente diz que ele era só um menino estúpido numa embalagem bonita. E era quase sempre.
Giovanni falava alto e com as mãos e me explicava que parecia ríspido muitas vezes, mas não queria ser. Culpava o sotaque. A verdade é que ele era ríspido sim, mas não era nada que se eu levantasse minha voz um pouco não mudasse de tom. Giovanni era grande, bruto, mas quando eu dizia cala a boca ele se sentava como uma criança de castigo e pedia desculpas com as palmas das mãos unidas como as de um menino que reza sua penitência.
Todos vinham me falar das minhas qualidades antagônicas aos defeitos dele. Eu nunca respondi. O lado bom era segredo nosso.
Eu me limitava a sorrir porque entre nossas quatro paredes, na nossa cama de solteiro de lençóis azuis, Giovanni era doce, nunca desviava os olhos dos meus olhos, nunca dormia antes que eu adormecesse. Ele era sim um inferno da porta pra fora, mas ali, sozinho comigo, eu era o seu bem mais importante, meio mulher, meio mãe. Ele era o vigor que eu já não tinha, eu era a paz que ele procurava.
Quando me irritava demais e eu me escondia no meu quarto, esmurrava aos berros minha porta até que eu abrisse. E antes que eu o mandasse embora me apertava contra seu corpo como se eu tivesse mesmo para onde fugir. E eu, que já não era quase nada, que era mesmo um farrapo de gente, ficava ali sufocada, esperando que eu afrouxasse os braços e me deixasse respirar. Depois ele me comprava o perdão com cerejas frescas.
Ninguém entendia a razão de eu continuar me deitando todas as noites com Giovanni porque ninguém sabia quantas eu acordava com ele chorando me olhando dormir e quando eu perguntava o motivo ele dizia que era porque me amava.
A obsessão dele dizia tudo que a minha loucura precisava ouvir.
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