Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de December, 2003

Curvas e Retas

Difícil constuir paredes em círculos nessa ânsia geométrica de envolver e ser envolvido, nessa necessidade de que as coisas não tenham nem princípio nem fim. A gente ama e se vê vítima dessa condição de querer uma vida esférica como morar na lua, bailando soltos num espaço onde sequer é possível respirar, mas flutuar. O amor orbita.

Até que belo dia o que era atração e era mais, se choca como se a gravidade se desequilibrasse de repente ou viesse movendo as coisas de seu eixo numa transmutação imperceptível. Se bate de frente no susto. E nasce então uma nebulosa, ou um cometa que só o olho lírico enxerga. Quisera fosse uma estrela. Saudade.

Daí as paredes se transformam, e se antes envolviam, por um tempo aprisionam. Na consciência do fim, é normal debater-se nas quinas, se encolher para chorar nos ângulos. A casa fica grande demais para a nossa pequeneza. Desaparece a porta aberta, brotam esquadrias. E acaba por parecer melhor e mais justo deixar a Lua servindo os amantes, para o lado de lá da janela. E tratar de fechar as cortinas

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Correspondência Violada

Márcio,

às vezes me sinto assim, o maior de todos os paradoxos, me sinto mesmo um paradoxo ambulante. Mas escrevo para dizer que faltam 45 minutos para o Natal e eu estou muito melhor. Minha dor de solidão precisava mesmo era ficar sozinha e ouvir Frank Sinatra. E dançar. Já te contei que danço com vassouras? Danço com esfregões também, são mais humanos, tem cabelos. Adquiri o habito quando comecei a sujar as mãos. Eles acham engraçado quando we were all together dancin’ cheek to cheek. We: eu, os esfregões, quero dizer. Não gosto de cabeludos. Também sei dançar junto com pessoas, mas esse foi um bom costume que se perdeu.

A família aceitou meu desinteresse pelas rabanadas, não sem muxoxo, mas isso já era bem de se esperar. Como amanhã, prometi. Eles não entendem que eu preciso pensar em silêncio, no escuro, queimando essência de bergamota. Aqui também chove, estou em mangas de camisa. Cheguei mesmo a pensar que nevaria, mas foi uma idéia estúpida. Talvez nem esteja tão frio quanto aquele que eu sinto, mas não se preocupe, ainda tenho muito vinagre na adega e já comi metade dos fios de ovos do tender do almoço. Isso sem falar nas cerejas.

Vou ver se providencio alguém para levar carpas para o lago, mas não me invente nenhum chafariz, por obséquio. Chafarizes criam lodo aparente. O lodo dos lagos se deposita no fundo, a gente não precisa ficar olhando. Talvez devêssemos contratar um caseiro, creio que casa vai ficar fechada por muito tempo. Disseram-me que carpas comem mosquitos. Espero que deixem alguns para os sapos, para que as vitórias régias façam sentido.

Eu estou cantando, muito. Eu sou um arremedo de Billie Holiday no repeat. Primeiro All of me, depois You go to my head…e assim por diante. Desenhar é difícil. Até que tentei. Saiu um borrão, nem a combinação das cores ficou interessante. Preciso treinar ou enfiar os pés na tinta e pisotear algo como aqueles massagistas que trabalham com os pés porque não força suficiente nas mãos. Meu coração é verbal, uma pena. Andei pensando que também não existe musa sem poeta e sobre ser musa e sobre ser poeta? Parece-me que nenhum dos dois vale muito a pena.

Nunca mais quis Nova York. Mas já quis deveras a Broadway. Nunca tive coisas com Alexandria por pura ignorância, passei por lá, me mostram pela janela. Bonito. A gente descobre coisas estranhas no mundo. Casablanca só inspira romance em filme antigo mas faz um sol que só vendo! Snoopy é uma excelente companhia.

Num horóscopo aí da vida diz que leoninos são descobrir terras novas. O quão novas serão as terras do velho mundo?

Não me sai da cabeça Bonita – what magic words could capture you? Nunca lhe disse que ainda sei tocar violão, isso foi um lapso imperdoável. Prometo que me redimo. Quando eu acordar, lhe desperto com uma canção de Edu Lobo.

Ana

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Correspondência Violada

Márcio,

infelizmente, sobrou meu corpo aqui só por culpa da data da passagem. Eu já parti. Já estou longe, nem sei bem onde, acho que no meio do caminho entre o que eu ainda não sei e o que eu fiz questão de esquecer. Sinto-me como um livro de páginas em branco implorando para que alguém se anime a escrever. Como será atravessar o túnel de Londres para Paris?

Acho que lhe devo desculpas, negligenciei a nossa casa, é que eu cansei de correr atrás das paredes da nossa morada invisível. Elas são bem mais rápidas que eu.

Nosso jardim está meio desordenado, as flores brancas se misturam com as roxas e as vermelhas sem querer. Só as amarelas permaneceram junto da cerca. Acho que minha avó tinha razão. Amarelo é a cor da falsidade e não da amizade. Nem te conto! As folhas da fortuna criaram raízes no arame farpado. Ficaremos muito ricos, Márcio! E serão riquezas intangíveis e incontáveis. Desculpe pelo ipê rosa, não é outono mas ele já cobriu o chão de flores. Sente sua falta. Por todos os lados há folhas de amendoeiras. Não varri porque nosso jardim se despiu pra você e embora pareça sujo, as metáforas crescem como bem querem, com todo vigor, por todos os lados. A hera finalmente cobriu as paredes da casa e às vezes fica até difícil de abrir a porta para o lado de fora.

Vou pegar um cd na sua dispensa. O sashimi, eu dispenso. Vou cantar Summertime num tom mais agradável. Andei ensaiando uma outra canção, mas ainda não está muito bom. Mando-lhe depois essa também.

E bobo, nem pense em desfazer as suas malas. Você também já partiu.

Um beijo grande

Saudade

Ana

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Fotofobia.

Bendita seja a Argentina que me mandasse estes tons cinza. Ontem a luz era excessiva e o calor irrespirável. Fico lesa em dias de muito sol, a umidade me sufoca. Me tranco em casa. Não saio.

Se fosse hoje dia como o de ontem, não teria calçado sandálias e colocado de fora as canelas. Nunca quis mudar de cor quando as pessoas olhavam torto para meus pés em contraste com as tiras da sandália preta. Eu sou champanhe como a cor das meias de uma senhora na sua missa de bodas de ouro. E gosto. Combino com dias nublados.

Mas houvesse tanta luz como havia ontem, eu não teria caminhado até a locadora e não veria sozinha um bom filme. E não tperceberia que o cabeleireiro do outro lado da vitrine de um salão desmunhecava porque gostou dos meus cabelos bicolores. Nem a tristeza dos velhinhos na fila do banco que não andava. Nem a moça sudorenta a passar os ternos chinfrim na lavanderia chinesa. Não teria contado o tempo entre o abrir e o fechar dos sinais, ouvido buzinas e cigarras. Tampouco observado o cão obeso que não podia levantar a pata para mijar, nem a mangueira pequena e magricela torta de tão carregada de frutas. Espadas. Não me riria dos gansos, dos poodles, do vestido de bolo da moça para as fotografias em seus quinze anos. Parques. Não repararia nas betas saindo em bando da igreja com seus guarda-chuvas de espingarda, teria sido atropelada pelo fusca no posto de gasolina. Não brincaria com os porteiros. Não saberia que andar apertar no elevador. Não reconheceria no cheiro de alfazema na cabeça da criança a presença de piolhos. Teria medo das baratas que vem voando, do vendaval que espalha a poeira do concreto que emerge por todos os lados. Aspiraria o cheiro da chuva sem saber se há panelas para todas as goteiras. Tomaria banho frio. Dormiria de porta trancada e nua.

Se se iluminasse e aquecesse como ontem o presente dia, estaria agora trôpega como uma drogada a ter delírios românticos e a transpirar poesia.

O verão me cega e inspira.

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