Curvas e Retas
Difícil constuir paredes em círculos nessa ânsia geométrica de envolver e ser envolvido, nessa necessidade de que as coisas não tenham nem princípio nem fim. A gente ama e se vê vítima dessa condição de querer uma vida esférica como morar na lua, bailando soltos num espaço onde sequer é possível respirar, mas flutuar. O amor orbita.
Até que belo dia o que era atração e era mais, se choca como se a gravidade se desequilibrasse de repente ou viesse movendo as coisas de seu eixo numa transmutação imperceptível. Se bate de frente no susto. E nasce então uma nebulosa, ou um cometa que só o olho lírico enxerga. Quisera fosse uma estrela. Saudade.
Daí as paredes se transformam, e se antes envolviam, por um tempo aprisionam. Na consciência do fim, é normal debater-se nas quinas, se encolher para chorar nos ângulos. A casa fica grande demais para a nossa pequeneza. Desaparece a porta aberta, brotam esquadrias. E acaba por parecer melhor e mais justo deixar a Lua servindo os amantes, para o lado de lá da janela. E tratar de fechar as cortinas
© 2003, Ana Mangeon. All rights reserved.
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