Arquivos de January, 2004
Correspondência Violada
Márcio,
parece que o tempo fechou para cá para essas bandas e eu ando resmungando como uma velha daquelas bem corocas para quem tudo nunca é suficientemente bom para lhes agradar ou suficientemente ruim para ser ignorado por completo. Os resmungos tem sido uma boa distração nesses dias em que as palavras andam parcas e pouco emocionantes. Sinto-me como uma mulher grávida que já não suporta o peso da própria barriga. Mas há de faltar pouco para findar essa maldita gestação, nem que eu tenha que romper sozinha minha bolsa d’águas territoriais e parir fronteiras a fórceps. Hoje, dia vinte e oito de janeiro, completam-se oito meses que eu, impotente, espero. Oito meses aguardando todas as coisas que não aconteceram. Ficou uma lacuna no tempo, acho que foi propositado, para que eu pudesse descansar e traçar novas metas sem me dar conta da responsabilidade intrínseca às mudanças de atitude. E os ponteiros do relógio até que se moveram bem devagar por mais que eu acelerasse. Detesto ter que aguardar só mais um minuto que a minha chamada já será atendida, mas eu nunca desligo. Ampulhetas assim, de derramar tranqüilo são hipnóticas como ter que sentar de cara para parede quando minha mãe me colocava de castigo.
Eu consumi vorazmente trinta e duas semanas. Mas me dei conta que hoje se parece com ontem que se parece com anteontem e que todos os dias foram diferentes mas foram exatamente, o mesmo dia. Hoje ainda é dia 28 de maio de 2003. Daqui do alto a favela da Maré é inocente como um enxame de milhares de vaga-lumes.
Ana
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Márcio,
Que bom que você tem cuidado das nossas flores! Eu ando mesmo negligente demais com o nosso jardim. Tenho plantado metáforas noutros lugares nesse meu novo ofício de paisagista das palavras. Mas prometo que, qualquer hora, nos trago umas boas e novas…
Sabe qual foi problema, o porque das paredes fincadas, dos vidros fumê??? Aconteceu que anteontem eu percebi que as flores amarelas, muitas vezes crescem bem mais que as outras, e por mais que eu tenha muita vontade de pisoteá-las, continuo cuidando muito bem delas…Na minha incapacidade de podá-las, acabei optando por cortar os meus cabelos.
Aproveitemo-nos do ócio, nosso convidado, ele trouxe como mimo um pacotão de tempo. Podemos compor uma canção ou tentar pegar as carpas no tanque com as mãos. A gente podia fazer um bazar para vender o que não nos serve mais, o que acha? Às vezes sinto saudade da sessão Jerry Lewis nos domingos à tarde.
Ah, chame as meninas pra jantar. Tomamos Irish Coffee. Se você produzir um final de outono podemos, quem sabe, queimar alguma lenha aromática na lareira. E marshmellows. Eu faço panquecas e mousse de chocolate branco. E a gente pode brincar de mímica, assistir um Fellini ou filosofar bêbados sobre o nada até o amanhecer.
Chame as meninas, vai! Chame todo mundo. Destravei os rodízios das paredes. Quanto mais plena maior se torna a casa.
No commentsCorrespondência Violada
Márcio,
um fenômeno estranho vem me acontecendo, algo que eu nunca fui mesmo capaz de supor que pudesse ocorrer comigo, pois minha vida completa sua rotação de três em três dias, mas eu não mudo. Eu sou o eixo do meu tudo. Entretanto, de uns tempos para cá alguma coisa anda se movendo dentro de mim, e não é filho nem é diarréia, e não sofro também do labirinto, mas me vem uma tontura, um enjôo de tudo, da minha cara sabichona de anteontem no espelho. Um desconforto diante das minhas mesmas roupas no armário, daquele pretume para me destacar. Ando incomodada com a minha esquisitice rotineira que ninguém mais estranha. Falta cor em mim, falta a agressividade do laranja, a vida do turquesa e ao mesmo tempo a elegância do salmão ou tranqüilidade do lilás. Preto é ausência, Márcio, o preto nos tecidos que me cobrem sempre foi à representação dessa lacuna que eu sentia em ser-me, porque eu sempre fui assim, um tanto lúgubre.
O entendimento é um processo surpreendente, pois, às vezes, um detalhe que poderia passar desapercebido desencadeia uma sucessão de respostas para perguntas que não haviam sido feitas, e eu agora me sinto submersa nesse denso oceano de mim mesma. Preciso de mais matizes, de outros tons. De, em vez do sorriso amarelo tão evidente, exibir a delicadeza monalísica do dente pérola. Nada dessa tristeza originalmente azul royal, mas uma melancolia suspirando em anil. Poder livrar-me da euforia verde bandeira para dar lugar a uma alegria água.
Eu sei, eu bem sei que eu tenho essa pretensão enérgica das cores primárias, essa ilusão de ser matriz de todas as outras cores que se pintam em minha volta. Mas eu estou pacificando Márcio, tranqüilizando dia após dia. Não sei direito o porquê, mas estou ficando meio pastel.
Cara, até o amor que eu sempre amei vermelho sangue ficou rosa-bebê!
Ana
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Márcio,
pense numa moça muito bonita mesmo mas por quem você não sente a menor atração. O que essa moça é para você, Niterói é para mim, uma cidade plena de predicados mas que não me move o sangue nas veias.
Niterói é um como um modismo, não, como vários, um seguido do outro. Todas as pessoas por aqui parecem iguais. Vão aos mesmos lugares, falam sobre as mesmas coisas e quem não se enquadra ou se entedia acaba fazendo como eu, escapando para o outro lado da ponte numa ansiedade de imagens que tenham uma cor destoando, um som dissonante numa voz. Aqui tudo pretende ser perfeito. Já te disse que em Copacabana se podem tingir os pêlos pubianos por dez reais? Soube disso por uma vitrine de um salão medíocre colado numa pet shop durante o Carnaval de 2002. Mas em Niterói isso não é possível, pois ninguém tem púbis, as pessoas têm vergonhas. Fico pensando o que me diria Araribóia quando visse sua terra assim tornada tão hipócrita.
No Rio de Janeiro, pessoas com nome e sobrenome são plenamente anônimas. Vão ao cinema mofado, comem no melhor restaurante num dia e no botequim da esquina noutro, saem de tênis à noite, gostam de Fabio Júnior se quiserem. Imagino como não é em São Paulo! Já aqui, as pessoas têm linhagem como cavalos de raça. São filhos de alguém, sobrinhas de fulano, casadas com beltrano. Por favor Márcio! Nunca fale mal de quem quer que seja nesta cidade. Aqui, todos os telefones são sem fio.
Eu moro num bairro renom(e)ado. Era Santa Rosa, tinha cara de subúrbio, cadeiras de praia com velhinhos na calçada. Agora é Jardim Icaraí, pólo gastronômico. Aqui têm italiano doc, japonês fino, cartas de vinho, iguarias. Foi virando tanta pompa que o valor do IPTU faz esquecer os tempos de prédios sem gradeado e queimada no asfalto de pés no chão.
Aqui tem praia limpa e Niemayer. Aqui é reduto do PDT. Aqui se produz músico de sucesso. E para cada um deles três tão bons que não vão dar em nada. Tem-se qualidade de vida, diploma da Unesco. Niterói produz Big Brothers em escala! Aqui, pessoas fazem até bodas de ouro. E todas as meninas têm cabelos lisos e casam virgens, na igreja.
Por Deus, eu não sou daqui , sou marinheiro só, eu não tenho amor! Atravesso a ponte quando quero respirar Márcio, porque Niterói tem Itacoatiara mas não tem o Arpoador…
Venha me visitar um dia. Andamos de barca, tomamos água de coco, pegamos o sol quando ele ameaçar se pôr. E a gente pode se ensopar no temporal toda vez que um vendaval calar a Boca da Barra! Sabe, é que deu defeito na máquina de fabricar garoa…
Ana
No commentsCorrespondência Violada
Márcio,
você me fala em gotas que se despedaçam e eu penso em granizo. É curiosa a idéia de que às vezes caia gelo do céu, essa certeza de que tudo pode de repente ficar demasiado frio. Assim como pode também fundir de repente. E eu estou no degelo. Todos os sentimentos outrora paralisados começam a me banhar, é tudo muito como um rio muito bravo em dias de tempestade que corre desabalado leito abaixo, arrastando imperativamente as coisas, derrubando tudo que está de pé por onde passa. Em muitas horas o ar é pouco, sufoco, penso que me afogo mas não afogo. Ocorre no meu peito uma grande inundação. Eu precipito.
Essa chuva que lhe molha, quem a chora, sou eu.
Ana
No commentsMacarrão Instantâneo
Eu olhava a fervura levantar na panela enquanto ele comia um pedaço de queijo curado com garfo e faca. Estava concentrado nos mosquitos que sobrevoavam um cacho de bananas que de tão pretas pareciam assadas e cheiravam forte. Cheiro de banana velha é bom, murmurou. Come então, ué? Eu disse cheiro, não gosto. Então tá, não come…Eu aceito sempre tudo, a última palavra é sempre dele e a vida é fácil assim, nesse constante sim senhor. Ele sempre vai mesmo embora. Cadê a chave do carro. Na mesinha do telefone, na segunda gaveta, do lado das páginas amarelas de 99. Você tem sempre que ter essa precisão? É pra facilitar. Eu nunca digo sei lá, procura puto, mas às vezes queria. O telefone está tocando! É sempre para ele, mas sou eu quem atendo. Pois não, vou chamar. Falo no ouvido quem é, não grito. E ele levanta mal humorado e diz que preciso dum telefone sem fio. A água a cem graus, o macarrão faz espuma. Apago o fogo. Escorro. Sento, misturo o tempero, como de colher pra poupar o trabalho de ficar enrolando no garfo. Coloco meus pés descalços cruzados sobre a cadeira. Ele volta arrumando a gravata, veste o paletó, encosta no umbral da porta da cozinha pequena. Esse troço tem um cheiro enjoado. Eu mastigo de boca aberta para provocar. Você é mesmo uma criatura muito fuleira! Levanto, me aproximo com olhar de vira-lata. Que foi? Cravo-lhe a mão miúda entre pernas, dou um beijo de galinha caipira. E aí ele entende o sabor que eu tenho e que gosta e então me saboreia como um gourmet que degusta a mais fina iguaria. Nessa hora, eu sou seu caviar. Sobre a mesa, ele é meu prato feito.
06/01/2004
No commentsNossa Canção
Eu canto saudade, você distância
Sibilo vontade, você repugnância
Num acorde menor digo sim, Si Bemol
Mas você não me segue, vai Lá.
Que Lá fosse harmônico, quis eu
Mas nosso amor de cristal se quebrou.
Já não há. E lá é o lugar
Onde espero e você não está.
Acabou, a gente desafinou
Apagou a luz do nosso Sol
Antes da quarta me mando, vou só
E se parecer assim, sem final
É porque eu parto muda e sem Dó.
Correspondência Violada
Marcio,
o ano começou como um eco estanque, mas acho que foi porque eu não levei papel e caneta e as palavras ficaram se repetindo na minha cabeça implorando uma fuga no entanto eu estava entorpecida demais para discursos de efeito e calei. Parecia mesmo um milagre, mas eu calei muitas vezes porque lá praquelas bandas o céu tem muito mais estrelas – eu sei, está ficando repetitivo esse meu papo de estrelas, mas eu não resisto – e a gente se sente mesmo dentro de uma esfera – lembra do menino da bolha? Dentro mesmo, não na superfície. Aí que não adianta gritar, nem falar. A atmosfera abafa. E ainda assim o ano começou como um eco. E o eco virou uma lágrima. E eu ri não de mas da emoção. Champanhe barato me deixa bêbada-imbecil. Pareço uma pomba-gira.
Lá não havia máquinas, a energia era parca e suficiente só para uma chuveirada morna por dia e nunca ao mesmo tempo em que os vizinhos. Fez muito sol mas não fez calor, foi difícil resistir à tentação de me macular a tez mas eu venci. Continuo alva. Dancei um pouco com pessoas fedorentas que ainda são melhores que vassouras. Interação é um ventinho que leva devagar e adiante. Azarei, paquerei, xavequei…o Brasil fala mesmo muitas línguas e nenhuma é a que eu entendo, Márcio. Eu não entendo mais nada, nada. O mundo me parece ininteligível, eu não sei mais ler lábios. Flerte é uma brincadeira boa até quando não tem maiores conseqüências. Dessa vez eu não pedi ninguém em casamento.
O ano começou como um eco curto, um aaa…aa..a abafado. Algo me angustia, acho que é medo de sei lá o que, medo de perder, de não mais ser. Medo de avião. Medo do silêncio. Eu tive medo demais do silêncio, por isso me calei. No que a gente silencia pode se ouvir, e é aí que mora o perigo. Eu falo muita bobagem.
Feliz Ano Novo, baby!
Ana
No commentsAntes da Chuva
Para nós, todo o espaço do mundo.
Já correram todos. Fechadas estão janelas
e portas e corpos e o firmamento.
Dê-me sua mão, é nosso momento
de fazermo-nos, das peles, o nosso unguento.
Dores amenizam, vozes se calam.
Já são seis horas, anoiteceu.
Mostra-me o ponto
onde a gente se perdeu?
O calçamento em preto, em branco
O nosso filme, de cinema mudo.
O olhar fixo do seu olho no meu olho.
Seu sorriso bravo, meu breve consolo.
Esquece as raízes que eu esqueço o cais.
O ar sob nossos pés – sob minha saia -
canta cirandas e brinca, em espirais.
O tempo é nosso, congeminemos.
E que seja intenso esse nosso instante.
O mundo se rendeu, não existem outros pares.
Plúmbeo, o céu anil, escureceu.
A Cinelândia é a nossa Buenos Aires.
Minha mão na sua nuca,
agarra. É laço.
Seus dedos minha cintura,
seguram. E sinto.
Nada mais nos prende:
nem os primeiros pingos frescos,
nem o abrir do sinal,
nem o aproximar do Carnaval.
Giremos, erguidos pelo vento,
voemos lançados por suas súbitas rajadas.
Planemos sustentados por hálitos mornos.
Lembremos do dia em que Deus nos libertou as asas.
Bailemos em praça pública
esquecidos de destino, de tempo
de nomes, de olhares. Não nos saibamos.
Abstraiamos todas as posterioridades.
Ah, sim. Já se anuncia o temporal
apresentou-se, o porta-voz: o vendaval.
Rodemos, rodemos, rodemos e libertemo-nos.
Já estamos muito longe embalados na poeira.
Dancemos pelo ar, enquanto a chuva ainda é rala.
Você voando, um papel de bala.
Eu levitando, folha de amendoeira.
(revisto em 24/07/2010)
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