Correspondência Violada
Márcio,
um fenômeno estranho vem me acontecendo, algo que eu nunca fui mesmo capaz de supor que pudesse ocorrer comigo, pois minha vida completa sua rotação de três em três dias, mas eu não mudo. Eu sou o eixo do meu tudo. Entretanto, de uns tempos para cá alguma coisa anda se movendo dentro de mim, e não é filho nem é diarréia, e não sofro também do labirinto, mas me vem uma tontura, um enjôo de tudo, da minha cara sabichona de anteontem no espelho. Um desconforto diante das minhas mesmas roupas no armário, daquele pretume para me destacar. Ando incomodada com a minha esquisitice rotineira que ninguém mais estranha. Falta cor em mim, falta a agressividade do laranja, a vida do turquesa e ao mesmo tempo a elegância do salmão ou tranqüilidade do lilás. Preto é ausência, Márcio, o preto nos tecidos que me cobrem sempre foi à representação dessa lacuna que eu sentia em ser-me, porque eu sempre fui assim, um tanto lúgubre.
O entendimento é um processo surpreendente, pois, às vezes, um detalhe que poderia passar desapercebido desencadeia uma sucessão de respostas para perguntas que não haviam sido feitas, e eu agora me sinto submersa nesse denso oceano de mim mesma. Preciso de mais matizes, de outros tons. De, em vez do sorriso amarelo tão evidente, exibir a delicadeza monalísica do dente pérola. Nada dessa tristeza originalmente azul royal, mas uma melancolia suspirando em anil. Poder livrar-me da euforia verde bandeira para dar lugar a uma alegria água.
Eu sei, eu bem sei que eu tenho essa pretensão enérgica das cores primárias, essa ilusão de ser matriz de todas as outras cores que se pintam em minha volta. Mas eu estou pacificando Márcio, tranqüilizando dia após dia. Não sei direito o porquê, mas estou ficando meio pastel.
Cara, até o amor que eu sempre amei vermelho sangue ficou rosa-bebê!
Ana
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