Correspondência Violada

Márcio,

parece que o tempo fechou para cá para essas bandas e eu ando resmungando como uma velha daquelas bem corocas para quem tudo nunca é suficientemente bom para lhes agradar ou suficientemente ruim para ser ignorado por completo. Os resmungos tem sido uma boa distração nesses dias em que as palavras andam parcas e pouco emocionantes. Sinto-me como uma mulher grávida que já não suporta o peso da própria barriga. Mas há de faltar pouco para findar essa maldita gestação, nem que eu tenha que romper sozinha minha bolsa d’águas territoriais e parir fronteiras a fórceps. Hoje, dia vinte e oito de janeiro, completam-se oito meses que eu, impotente, espero. Oito meses aguardando todas as coisas que não aconteceram. Ficou uma lacuna no tempo, acho que foi propositado, para que eu pudesse descansar e traçar novas metas sem me dar conta da responsabilidade intrínseca às mudanças de atitude. E os ponteiros do relógio até que se moveram bem devagar por mais que eu acelerasse. Detesto ter que aguardar só mais um minuto que a minha chamada já será atendida, mas eu nunca desligo. Ampulhetas assim, de derramar tranqüilo são hipnóticas como ter que sentar de cara para parede quando minha mãe me colocava de castigo.

Eu consumi vorazmente trinta e duas semanas. Mas me dei conta que hoje se parece com ontem que se parece com anteontem e que todos os dias foram diferentes mas foram exatamente, o mesmo dia. Hoje ainda é dia 28 de maio de 2003. Daqui do alto a favela da Maré é inocente como um enxame de milhares de vaga-lumes.

Ana

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