Archive for February, 2004

Correspondência Violada

Márcio,

Estive sentada nessa tarde dominical na varanda, naquela que fica embaixo da janelinha do sótão, onde tem uma poltrona pendurada por um gancho para o lado de fora. Fiquei ali observando a extensão de nossas terras e admirando o Índio Sebastião conversar com o cão e com as amêndoas caídas no quintal. Nem lhe contei, o cão voltou a cantar! Disse-me ele lá de baixo falando sempre com aquela mansidão de quem não se importa em ser compreendido rapidamente porque sabe que as palavras sempre chegam ao seu destino: Donana, a terra anda se ressentindo de carinho e de boa conversa. A senhorita não notou que ela tem feito tudo para chamar sua atenção?

Foi então que eu percebi que não tinha sido a chuva que tornara a grama tão viçosa e reluzente, nem o dedo verde desse nosso caseiro bicentenário que adocicara as mangas e as pitangas e mantivera os maracujás azedos porque eu assim gosto. Era a terra pedindo presenças, pés descalços na lama, mais visitas chegando pela porteira e desbravando as colinas a trote nas mulinhas de chapéu de flor.

E aconteceu que, de repente, enquanto as mãos enrugadas de Sebastião trituravam as amêndoas para fazer óleos, durante minha profunda contemplação do nosso espaço aromatizado pela manifestação das damas da noite, no momento em que o cão assobiava algo que talvez ele mesmo tenha composto e que era lindo e hipnótico e irreconhecível aos meus ouvidos, que notei linhas assimétricas que cortavam toda a extensão verde de nosso território. Ainda esfreguei meus olhos achando que poderia ser minha fotofobia tentando me castigar pela teimosia em não usar jamais óculos escuros, mas elas estavam mesmo lá. Pedi que me cilhassem um cavalo- embora goste demais delas minha coluna não me permite o trotar das mulinhas – e fui averiguar. Passei pela horta de quintanas, pelo charco dos porcos azuis. Atravessei toda as planícies de ervas rasteiras, morangos e melancias até que cruzei o portão da fazenda e fui me meter na vila das estufas e depois na pequena cerâmica. De perto assim, as linhas não eram visíveis e tive a impressão de ter sido um delírio.

Para tirar a prova dos nove decidi subir ao pico do cajueiro e o cajueiro estava cheio de cajus maduros e perfumados caídos a seu pé, e formigas faziam longas trilhas, e vistas lá do alto eram de néon todas as linhas. Uma formiga vermelha me ferrou no dedão e eu olhei para baixo. Eu pisava sobre algo que pensei ser um pobre formigueiro destruído mas não era. Era uma castanha diferente. E tinha um nome escrito nela. Um nome que eu sei que vai lhe fazer sorrir quando você ler. Acho que nosso cajueiro apaixonou-se e quer casar Márcio. Talvez devamos começar uma pequena reforma agrária…

Carinho

Ana

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Correspondência Violada

Márcio,

As notícias que trago não são boas, e talvez lhe enervem como comigo fizeram, porque a consciência de certas pequenezas da natureza humana, muitas vezes, fazem com que supliquemos aos céus pela ignorância. Têm coisas que eu preferia desconhecer. E talvez eu esteja também exagerando no calor dos ânimos.

Telefonou-me uma vizinha faz meia hora, disse-me que entraram na nossa casa sem permissão. E não que isso fosse um pecado pois, que pecado há em entrar por acidente numa casa que não tem portas nem trancas e as paredes se movem cada hora para um lugar? A coisa é que se apossaram dos nossos gizes de cera e alteraram a cor da mobília. Minha poltrona de leitura foi parar do outro lado da sala de estar, não está mais sob a clarabóia. Como declamar Neruda para a Lua? Pisotearam nosso jardim e as minhas tulipas se rendem tristonhas ao estrago e às pragas advindas com o calor. Mexeram nos controles do termostato da estufa, talvez tenham quebrado as vidraças, a vizinha não teve coragem de verificar.

Beberam a vodka que você goteja no meu chá quando eu fico lusco-fusca.

Molestaram a paz dos nossos convidados que se retiraram indignados e convidaram outros que não sei se saberiam usufruir o nosso espaço. Vandalizaram nossa arquitetura infinita construída da nossa impresumível intimidade à distância. Denegriram nossas sutilezas. Pilharam nossas metáforas, copiaram, e venderam por aí por dois tostões de mel coado. E eu que sempre achei que a completa exposição era a melhor maneira de manter o ambiente indevassável!

Assaltaram nosso lar, envenenaram nosso cão canoro. E eu me sinto impotente pois o que podemos fazer? Afixar as paredes? Comprar grossas cortinas ? Trancar as portas? Se for assim, melhor libertar as carpas e colocar a casa a venda…

Ana

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Correspondência Violada

Ah, Márcio…

Das muitas Anas restou só aquela Ana que não presta que é aquela que nunca parte. A desanimada, triste e sozinha. Por vezes fico pensando se essa não é a de verdade é a aí que as pequenas farpas doem mais, como se tivessem encravadas no sabugo das unhas.

De nada me vale sair andando pela cidade desfilando minhas camisetas que eu mesma pinto e a saia que eu roubei de uma amiga na esperança de parecer um pouco mais alegre. Olho-me no espelho e vejo uma imagem funesta, olheiras. Há muitos anos eu não chorava tanto e não dormia tanto em detrimento a toda química circulante no meu sangue e que deveria me manter acordada.

Não tenho expectativas. Sentei na rede da varanda pra ver o tempo passar. Distraio-me vendo os operários da obra no prédio da frente que já supera a altura do meu. Ficou um tanto devassado o meu lar e a poeira invade minha casa que por isso está sempre meio suja por mais que a gente se esforce em limpar. Pareço, ás vezes, uma criança que brincou descalça na rua, dada a cor das solas dos meus pés. Só que eu não brinquei. É apenas o pó de cimento vindo da frente. O barulho deles espanta os passarinhos. Os sanhaços não vêm mais comer a bananas que deixamos para eles no terraço.

Estava mesmo evitando lhe escrever porque queria lhe falar de alegrias, mas não tenho nenhuma no momento. Estou parada aqui, assistindo o tempo se arrastar. Uma amiga ficou de tentar me arrumar um trabalho temporário para ver se os dias morrem mais rápido até eu partir. Sinto-me como se tivesse puxado o papelzinho número 900 da senha e visto no painel que eles ainda nem chamaram o número 100.

É assim Márcio, estão faltando as palavras embora sobre tempo para elabora-las. Faltam vontades. Faltam romances que preencham as carências da alma. Falta dança, faltam aquarela e lápis pastel. Faltam flores, borboletas e escaravelhos para puxar caixas de fósforos. Falta infância. Faltam açúcar em torrões e chocolate branco. Faltam licor de pêssego, gelatina colorida e brigadeiros. Falta riso, falta bossa…quem diria que é Carnaval?

Prometo outras palavras, mais sucintas e mais divertidas, para uma próxima ocasião.

E não vá se preocupar amigo! É só que tem vezes que o peso da própria existência é tanto, que, para agüentar, a gente respira fundo, contrai a barriga mas, ainda assim, a gente curva.

Ana

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