Correspondência Violada
Ah, Márcio…
Das muitas Anas restou só aquela Ana que não presta que é aquela que nunca parte. A desanimada, triste e sozinha. Por vezes fico pensando se essa não é a de verdade é a aí que as pequenas farpas doem mais, como se tivessem encravadas no sabugo das unhas.
De nada me vale sair andando pela cidade desfilando minhas camisetas que eu mesma pinto e a saia que eu roubei de uma amiga na esperança de parecer um pouco mais alegre. Olho-me no espelho e vejo uma imagem funesta, olheiras. Há muitos anos eu não chorava tanto e não dormia tanto em detrimento a toda química circulante no meu sangue e que deveria me manter acordada.
Não tenho expectativas. Sentei na rede da varanda pra ver o tempo passar. Distraio-me vendo os operários da obra no prédio da frente que já supera a altura do meu. Ficou um tanto devassado o meu lar e a poeira invade minha casa que por isso está sempre meio suja por mais que a gente se esforce em limpar. Pareço, ás vezes, uma criança que brincou descalça na rua, dada a cor das solas dos meus pés. Só que eu não brinquei. É apenas o pó de cimento vindo da frente. O barulho deles espanta os passarinhos. Os sanhaços não vêm mais comer a bananas que deixamos para eles no terraço.
Estava mesmo evitando lhe escrever porque queria lhe falar de alegrias, mas não tenho nenhuma no momento. Estou parada aqui, assistindo o tempo se arrastar. Uma amiga ficou de tentar me arrumar um trabalho temporário para ver se os dias morrem mais rápido até eu partir. Sinto-me como se tivesse puxado o papelzinho número 900 da senha e visto no painel que eles ainda nem chamaram o número 100.
É assim Márcio, estão faltando as palavras embora sobre tempo para elabora-las. Faltam vontades. Faltam romances que preencham as carências da alma. Falta dança, faltam aquarela e lápis pastel. Faltam flores, borboletas e escaravelhos para puxar caixas de fósforos. Falta infância. Faltam açúcar em torrões e chocolate branco. Faltam licor de pêssego, gelatina colorida e brigadeiros. Falta riso, falta bossa…quem diria que é Carnaval?
Prometo outras palavras, mais sucintas e mais divertidas, para uma próxima ocasião.
E não vá se preocupar amigo! É só que tem vezes que o peso da própria existência é tanto, que, para agüentar, a gente respira fundo, contrai a barriga mas, ainda assim, a gente curva.
Ana
© 2004, Ana Mangeon. All rights reserved.
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