Correspondência Violada
Márcio,
As notícias que trago não são boas, e talvez lhe enervem como comigo fizeram, porque a consciência de certas pequenezas da natureza humana, muitas vezes, fazem com que supliquemos aos céus pela ignorância. Têm coisas que eu preferia desconhecer. E talvez eu esteja também exagerando no calor dos ânimos.
Telefonou-me uma vizinha faz meia hora, disse-me que entraram na nossa casa sem permissão. E não que isso fosse um pecado pois, que pecado há em entrar por acidente numa casa que não tem portas nem trancas e as paredes se movem cada hora para um lugar? A coisa é que se apossaram dos nossos gizes de cera e alteraram a cor da mobília. Minha poltrona de leitura foi parar do outro lado da sala de estar, não está mais sob a clarabóia. Como declamar Neruda para a Lua? Pisotearam nosso jardim e as minhas tulipas se rendem tristonhas ao estrago e às pragas advindas com o calor. Mexeram nos controles do termostato da estufa, talvez tenham quebrado as vidraças, a vizinha não teve coragem de verificar.
Beberam a vodka que você goteja no meu chá quando eu fico lusco-fusca.
Molestaram a paz dos nossos convidados que se retiraram indignados e convidaram outros que não sei se saberiam usufruir o nosso espaço. Vandalizaram nossa arquitetura infinita construída da nossa impresumível intimidade à distância. Denegriram nossas sutilezas. Pilharam nossas metáforas, copiaram, e venderam por aí por dois tostões de mel coado. E eu que sempre achei que a completa exposição era a melhor maneira de manter o ambiente indevassável!
Assaltaram nosso lar, envenenaram nosso cão canoro. E eu me sinto impotente pois o que podemos fazer? Afixar as paredes? Comprar grossas cortinas ? Trancar as portas? Se for assim, melhor libertar as carpas e colocar a casa a venda…
Ana
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