Correspondência Violada
Márcio,
Estive sentada nessa tarde dominical na varanda, naquela que fica embaixo da janelinha do sótão, onde tem uma poltrona pendurada por um gancho para o lado de fora. Fiquei ali observando a extensão de nossas terras e admirando o Índio Sebastião conversar com o cão e com as amêndoas caídas no quintal. Nem lhe contei, o cão voltou a cantar! Disse-me ele lá de baixo falando sempre com aquela mansidão de quem não se importa em ser compreendido rapidamente porque sabe que as palavras sempre chegam ao seu destino: Donana, a terra anda se ressentindo de carinho e de boa conversa. A senhorita não notou que ela tem feito tudo para chamar sua atenção?
Foi então que eu percebi que não tinha sido a chuva que tornara a grama tão viçosa e reluzente, nem o dedo verde desse nosso caseiro bicentenário que adocicara as mangas e as pitangas e mantivera os maracujás azedos porque eu assim gosto. Era a terra pedindo presenças, pés descalços na lama, mais visitas chegando pela porteira e desbravando as colinas a trote nas mulinhas de chapéu de flor.
E aconteceu que, de repente, enquanto as mãos enrugadas de Sebastião trituravam as amêndoas para fazer óleos, durante minha profunda contemplação do nosso espaço aromatizado pela manifestação das damas da noite, no momento em que o cão assobiava algo que talvez ele mesmo tenha composto e que era lindo e hipnótico e irreconhecível aos meus ouvidos, que notei linhas assimétricas que cortavam toda a extensão verde de nosso território. Ainda esfreguei meus olhos achando que poderia ser minha fotofobia tentando me castigar pela teimosia em não usar jamais óculos escuros, mas elas estavam mesmo lá. Pedi que me cilhassem um cavalo- embora goste demais delas minha coluna não me permite o trotar das mulinhas – e fui averiguar. Passei pela horta de quintanas, pelo charco dos porcos azuis. Atravessei toda as planícies de ervas rasteiras, morangos e melancias até que cruzei o portão da fazenda e fui me meter na vila das estufas e depois na pequena cerâmica. De perto assim, as linhas não eram visíveis e tive a impressão de ter sido um delírio.
Para tirar a prova dos nove decidi subir ao pico do cajueiro e o cajueiro estava cheio de cajus maduros e perfumados caídos a seu pé, e formigas faziam longas trilhas, e vistas lá do alto eram de néon todas as linhas. Uma formiga vermelha me ferrou no dedão e eu olhei para baixo. Eu pisava sobre algo que pensei ser um pobre formigueiro destruído mas não era. Era uma castanha diferente. E tinha um nome escrito nela. Um nome que eu sei que vai lhe fazer sorrir quando você ler. Acho que nosso cajueiro apaixonou-se e quer casar Márcio. Talvez devamos começar uma pequena reforma agrária…
Carinho
Ana
© 2004, Ana Mangeon. All rights reserved.
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