Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de March, 2004

Correspondência Violada

Márcio,

preferia deixar só um bilhete dizendo fui ali e já volto, pois ali e já têm a distância e o tempo que deseja para mim, um pensamento. Talvez para você ali seja lá longe e para um outro alguém seja logo na esquina. Talvez para você minha ausência por um átimo seja o prenúncio de dias sem fim e para outrem um dar de ombros resignado: ela volta. E eu volto sim, para algum lugar que talvez seja aqui, talvez não. Quando a gente se larga surgem muitos pousos e razões para retornar e num dado momento a gente enxerga para onde, e porquê.

Querendo ou não deixamos uns pedacinhos em cada porto e sem saber se foram só partes da casca, lágrimas ou sementes.

Pensando bem, a minha ida não deixa de ser um retorno. A gente é que tem essa mania de tomar sempre o coração como ponto de partida.

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Últimas Palavras

Disse-me o senhor Idalino no final dos seus dias:

“Eu sei umas coisas, algumas diria. Na verdade eu sei muitas coisas de pouca ou nenhuma serventia para alguém além de mim. Em contra partida eu conheço muito pouco das infinitas coisas existentes no mundo para se conhecer. Se me perguntarem nomes, datas, é bem provável que eu não me lembre. Nunca viajei para além da outra margem desse rio que você pode ver aí da janela. Não sei quem canta a melodia que soa em meus ouvidos agora, porque, na verdade o que me importa é a melodia não o músico. Não sei quem pintou os painéis que permeiam meus sonhos. Recito versos mas confundo os poetas. Eu não me importo com referências pois as coisas que eu sei eu armazeno na alma enquanto para as coisas que eu conheço deixo o cérebro, e o meu não é lá muito eficiente faz tempo, acho mesmo que nunca foi. Só lembro coisas sem a menor importância prática, feito o tema da velha propaganda de purgante. Canto para você depois.

Saber não tem nada com conhecer. Muitos não conhecem nada e sabem tanto! O saber é o fruto melhor da observação, o filho do olho atento às sutilezas do cotidiano. O saber vem no degustar aquilo que passa desapercebido ao fitar apressado de quem se incomoda com tempo. O saber comove, menina! Já o conhecimento a gente compra nos livros, a gente vive na vivência dos outros. O conhecimento vem pronto embalado, vem de um saber que alguém sabia e dividiu. Conhecimento é bom, muito bom, mas é preciso aprender a transformá-lo em sabedoria, pois conhecimento consumido e cuspido, é mera informação. Ás vezes é um cavalo arredio que poucos domam, eu sei. Mas ainda assim, ainda que absolutamente necessário, é mera informação se não é pensado e elaborado. E como eu disse eu conheço muito pouco.

Mas sei coisas lindas de que não preciso convencer ninguém. Posso dizer isso agora assim, sem medo, porque não me resta mais muito a fazer por aqui. Meu legado termina ali defronte. E talvez você acabe me achando só mais um velho moribundo e arrogante. Mas digo, ainda que não exista como provar, que a sabedoria toca sem querer na alma num átimo menor que um piscar de olhos e uma vez reconhecida e cultivada, multiplica-se eternamente sem que haja livros, nem mestres, nem alunos. O saber é algo que a gente lavra solitário, para subsistência. Mas que é sempre bom de oferecer quando chega alguém com fome, de surpresa, para o jantar.”

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Correspondência Violada

Márcio,

diante da possibilidade de lhe ter angustiado começo a considerar um tanto injusto dividir assim com você, como quem despeja um balde de cimento fresco, minhas questões da alma. São tantas as perguntas, meu amigo, tantos os porquês que não calam. E coisas que não são porquês mas são igualmente importantes na sua banalidade. Tenho pensado em joaninhas para meu ombro esquerdo que talvez me escalem os trapézios e visitem minhas tulipas na omoplata direita enquanto eu durmo. Talvez não. Talvez eu compre um poncho para Oslo. Que mau o tempo passa devagar me tentando. Preciso comprar remédio para a asma…e por aí vai.

Desenhar é bom, uma forma de expressão diversa e divertida, palavras tem me cansado um pouco. Meus caran d’ache de me deixam feliz e infantil. O pai critica minhas manias e fala que eu estou vestindo roupa de etiqueta por causa dos lápis. Ele não entende do prazer da textura macia da mina colorida no seu deslizar no papel. Ele só acha que eu não sei desenhar e pronto. E eu não acho que precise saber. Eu sei coisas que o pai nem imagina. E não é que eu esconda ou dissimule. É que nem todo mundo tem uma imaginação como a nossa.

Ana

Ah, o nome do cãozinho é Alikan.

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Jogo dos Sete Erros

Ele guardava a fotografia e depois me guardava e tentava perceber diferença nos traços, mas não havia.

-Sépia moça?
-Não, tempo…

E o papel de velho se desfez na sua mão e foi assim que eu desapareci numa poeira amarelada soprada ao sabor do vento.

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Correspondência Violada

Márcio,

Dormi um sono infantil apesar de todas as torturas que minha mente tem me imposto. Entender é vileza do pensamento e eu queria ás vezes a paz singela dos imbecis, algum autismo ou algum silêncio. Minhas palavras são falíveis por demais, por isso a coisa de passar-lhe a guarda delas. Você é cuidadoso, as saboreia, diria degusta. Para mim elas amargaram. Ruim essa coisa de perceber a própria entre linha, realmente perturbador a coisa de enxergar-se nas próprias mentiras.

Acordei cedo hoje, apesar de logo cair num sono vespertino e, por ter adormecido com os cabelos molhados acabar assustando meu irmão que passava desavisado pelo corredor do apartamento. Talvez, em nossa casa, o desalinho fizesse sentido por não ter a mínima importância. E eu olharia pela pequena janela do cômodo apertado e lhe pediria para traduzir os letreiros da propaganda de xampu. E choveria garoas ou paetês prateados ou quadradinhos de gelatina de amora.

Acordei misto de angústia e tranqüilidade. Confio na arquitetura onírica somente plausível se pelas suas mãos e seus olhos e seus planos mirabolantes que sempre funcionam. Seu olho vê uma ana linda que eu não vejo mas ela existe, eu sei, você só inventa verdades.

Ah, hoje criei toquios de yakisoba com pedaços de liberdade. E castelos de sorvete de pistache.

Ana

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Correspondência Violada

Márcio,

Tenho que lhe confessar alguma fraqueza, eu não resisti às vaidades do corpo e por isso o trabalho que eu supunha rápido e eficaz caminha bastante moroso causando engarrafamentos nos meus pensamentos. Você tinha toda razão quando falava de um mês para sua conclusão. Você quase sempre tem razão sobre as coisas e isso me faz pensar que olhos miúdos conferem ao olhar uma objetividade microscópica apesar de toda a subjetividade. Suas entrelinhas são certeiras.

Apesar da lentidão quase burocrática, vejo um filho bonito dormindo nos meus braços. Ele ainda é pequenino, requer cuidados e atenções, mas ele é bonito. Com sorte terá meus olhos quando os abrir, gosto deles. Você tem sido um excelente padrinho.

Andei pensando sobre as cidades sem fim e anas sem fim. Andei pensando na multiplicidade que carregamos dentro de nós mesmos e como podemos ser tão absolutamente diferentes do que éramos nos dois segundos que acabaram de passar entre o escrever de duas vírgulas. E fiquei lembrando do olhar do Márcio na imagem e da voz do Márcio ao telefone e me perdi no quão diversos de si mesmos eles são capazes de ser. Foi então que percebi que o frescor de boas conversas fica para sempre, um orvalho perene em noite de lua cheia e que nós em cada uma das nossas inúmeras facetas somos só uma parte de um universo que se expande indefinidamente e se chama Ser e invade outros universos igualmente expansíveis criando algo que pode ser chamado de Nós ou simplesmente de Deus.

Um beijo

Ana

ps: o que eu faço com essa minha necessidade urgente de aprender a tocar piano?

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Monólogos estranhos na madrugada

“É difícil dizer eu não amo você, muito mais mais do que dizer eu te amo. O eu te amo não machuca na hora que é dito. Só depois. Só quando quem disse cansou, virou as costas e já não vê. Talvez por isso tantas desculpas para terminar. Eu não te amo é uma punhalada no estômago. E eu te amo, um tiro pelas costas.”

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Correspondência Violada

Márcio,

às vezes penso coisas de destino porque não é sempre que acredito nessa capacidade de guiar a minha vida como se nela houvesse sim um leme que capitaneio mas existisse também um timoneiro brincalhão a me impelir a aportar em lugares inimagináveis.

Você me telefonou no espaço ínfimo de quinze minutos em que eu saí para comprar cigarros e talvez você tenha pensado que eu não voltaria mais. Mas homens que fumam essa marca Nunca Mais, corvos! Moças não, moças tem esse devir romântico. Moças deixam bilhetinhos de adeus marcados com batom. Moças não fogem com a roupa do corpo não…

Estou aqui, fumando cigarros de menta, caso você queira telefonar de novo. Não pedi seu número por isso não posso retornar a chamada. Tenho esse hábito de gostar que me liguem. Que boba eu que não sei aguardar surpresas.

Ana

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Guilherme

Lembro-me que quando me perguntaram “Você sabe que Guilherme não é legal com as mulheres, né?” eu dei um sorrisinho de quem não se importa e respondi que sabia. Mas na verdade eu só sabia que não era legal comigo, porque é ele quem não liga muito. Ele está acima disso e isso acontece pois venho por anos amando Guilherme no escuro sem sabê-lo, portanto, sem ser capaz de compreender. O amor ignorante ama o que no final das contas?

Estar com Guilherme sempre me foi como tentar nadar num lago muito raso, pois parecia que meu muito fôlego me impelindo a mergulhar fazia com que ele se sentisse as pernas curtas. Até que belo dia eu percebi que era ele o espelho d’água. Propositadamente turva. E que quando eu o admirava era o meu reflexo que eu olhava. E me veio como uma pontada dorida o pensamento: podemos até nos ver o reflexo na água, mas a água não é capaz de nos enxergar. Acho que Guilherme nunca me viu.

Eu sinto saudade de Guilherme, de sonhar Guilherme, de desejar Guilherme acima de todas as coisas. Eu sinto falta do desespero que me provocava seu olhar blasé, das suas atenções inesperadas, das nossas poucas porém significantes semelhanças e das nossas incomensuráveis diferenças. Eu sinto falta de esperar com esperança.

Por onde anda Guilherme? Nesse conto, em algum poema, nas horas apertadas do relógio. Por aí. Pelo ar.

Guilherme é feito de éter.

Guilherme nunca existiu.

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