Guilherme
Lembro-me que quando me perguntaram “Você sabe que Guilherme não é legal com as mulheres, né?” eu dei um sorrisinho de quem não se importa e respondi que sabia. Mas na verdade eu só sabia que não era legal comigo, porque é ele quem não liga muito. Ele está acima disso e isso acontece pois venho por anos amando Guilherme no escuro sem sabê-lo, portanto, sem ser capaz de compreender. O amor ignorante ama o que no final das contas?
Estar com Guilherme sempre me foi como tentar nadar num lago muito raso, pois parecia que meu muito fôlego me impelindo a mergulhar fazia com que ele se sentisse as pernas curtas. Até que belo dia eu percebi que era ele o espelho d’água. Propositadamente turva. E que quando eu o admirava era o meu reflexo que eu olhava. E me veio como uma pontada dorida o pensamento: podemos até nos ver o reflexo na água, mas a água não é capaz de nos enxergar. Acho que Guilherme nunca me viu.
Eu sinto saudade de Guilherme, de sonhar Guilherme, de desejar Guilherme acima de todas as coisas. Eu sinto falta do desespero que me provocava seu olhar blasé, das suas atenções inesperadas, das nossas poucas porém significantes semelhanças e das nossas incomensuráveis diferenças. Eu sinto falta de esperar com esperança.
Por onde anda Guilherme? Nesse conto, em algum poema, nas horas apertadas do relógio. Por aí. Pelo ar.
Guilherme é feito de éter.
Guilherme nunca existiu.
© 2004, Ana Mangeon. All rights reserved.
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