Correspondência Violada

Márcio,

diante da possibilidade de lhe ter angustiado começo a considerar um tanto injusto dividir assim com você, como quem despeja um balde de cimento fresco, minhas questões da alma. São tantas as perguntas, meu amigo, tantos os porquês que não calam. E coisas que não são porquês mas são igualmente importantes na sua banalidade. Tenho pensado em joaninhas para meu ombro esquerdo que talvez me escalem os trapézios e visitem minhas tulipas na omoplata direita enquanto eu durmo. Talvez não. Talvez eu compre um poncho para Oslo. Que mau o tempo passa devagar me tentando. Preciso comprar remédio para a asma…e por aí vai.

Desenhar é bom, uma forma de expressão diversa e divertida, palavras tem me cansado um pouco. Meus caran d’ache de me deixam feliz e infantil. O pai critica minhas manias e fala que eu estou vestindo roupa de etiqueta por causa dos lápis. Ele não entende do prazer da textura macia da mina colorida no seu deslizar no papel. Ele só acha que eu não sei desenhar e pronto. E eu não acho que precise saber. Eu sei coisas que o pai nem imagina. E não é que eu esconda ou dissimule. É que nem todo mundo tem uma imaginação como a nossa.

Ana

Ah, o nome do cãozinho é Alikan.

© 2004, ana. All rights reserved.

Diga

No comments yet. Be the first.

Leave a reply