Últimas Palavras
Disse-me o senhor Idalino no final dos seus dias:
“Eu sei umas coisas, algumas diria. Na verdade eu sei muitas coisas de pouca ou nenhuma serventia para alguém além de mim. Em contra partida eu conheço muito pouco das infinitas coisas existentes no mundo para se conhecer. Se me perguntarem nomes, datas, é bem provável que eu não me lembre. Nunca viajei para além da outra margem desse rio que você pode ver aí da janela. Não sei quem canta a melodia que soa em meus ouvidos agora, porque, na verdade o que me importa é a melodia não o músico. Não sei quem pintou os painéis que permeiam meus sonhos. Recito versos mas confundo os poetas. Eu não me importo com referências pois as coisas que eu sei eu armazeno na alma enquanto para as coisas que eu conheço deixo o cérebro, e o meu não é lá muito eficiente faz tempo, acho mesmo que nunca foi. Só lembro coisas sem a menor importância prática, feito o tema da velha propaganda de purgante. Canto para você depois.
Saber não tem nada com conhecer. Muitos não conhecem nada e sabem tanto! O saber é o fruto melhor da observação, o filho do olho atento às sutilezas do cotidiano. O saber vem no degustar aquilo que passa desapercebido ao fitar apressado de quem se incomoda com tempo. O saber comove, menina! Já o conhecimento a gente compra nos livros, a gente vive na vivência dos outros. O conhecimento vem pronto embalado, vem de um saber que alguém sabia e dividiu. Conhecimento é bom, muito bom, mas é preciso aprender a transformá-lo em sabedoria, pois conhecimento consumido e cuspido, é mera informação. Ás vezes é um cavalo arredio que poucos domam, eu sei. Mas ainda assim, ainda que absolutamente necessário, é mera informação se não é pensado e elaborado. E como eu disse eu conheço muito pouco.
Mas sei coisas lindas de que não preciso convencer ninguém. Posso dizer isso agora assim, sem medo, porque não me resta mais muito a fazer por aqui. Meu legado termina ali defronte. E talvez você acabe me achando só mais um velho moribundo e arrogante. Mas digo, ainda que não exista como provar, que a sabedoria toca sem querer na alma num átimo menor que um piscar de olhos e uma vez reconhecida e cultivada, multiplica-se eternamente sem que haja livros, nem mestres, nem alunos. O saber é algo que a gente lavra solitário, para subsistência. Mas que é sempre bom de oferecer quando chega alguém com fome, de surpresa, para o jantar.”
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