Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de April, 2004

No Deserto

Do horizonte me assombrava a luz laranja
Já não avistava da longa via reta, a morte
Mas me dizias: meu bem nós temos sorte!
Nessa vida tendo fé tudo se arranja.

Vi do calor, das sombras, muitas fugas
D’alma fundida, fustigada pelo sol apino
Surgiu-me doce a miragem de você menino
E no espelho meu rosto coberto pelas rugas.

Como pudeste agir assim, homem mesquinho?
De me fazer seguir sem conhecer bem o caminho?
De me guiar contigo para mundo onde não quero estar?

Onde mesmo vai chegar a nossa estrada?
Conduzirá ela ao amor? Levará ao mar?
Ou como nós ela também vai dar em nada?

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Outros Nomes

Estou cansada de ser Ana. Anas carregam a intensidade do mundo. Toda ana ama demais e tem enxaqueca. Toda ana dorme pouco e esconde as olheiras.

Eu podia ser meio carina, pois toda carina gosta e ri do umbigo que tem. Ou ter o mistério das rebecas, a graça das robertas. Pensei em ter a força enorme das helenas, a doçura das luizas. Ou a sensualidade das vanessas e das priscilas. Eu queria ser como as marianas que sempre conseguem fazer as unhas do pé.

Eu estou cansada de ser ana, pois toda ana precisa de porquês. Anas são sempre sozinhas e estão sempre cercadas de gente. Anas sempre estão em movimento.

Carolinas tímidas, fabianas obstinadas, márcias inteligentes, gerusas dedicadas, auroras obsoletas, vivianes ranhetas, veras enlouquecidas, gildas cinematográficas, valérias diluídas, biancas diminutas, deolindas octogenárias. E todas, se tudo isso fosse trocado, somado ou distribuído de outra forma eu queria ser.

Mas eu sou ana e anas se relacionam com a vida sem querer e profundamente. Anas têm esse hábito de fingir que não estão ligando, que não têm noção do perigo. Anas se importam. Anas se prendem em detalhes.

Anas são cada, tudo, amiúde. Excessivas. Anas são muito.

Eu estou cansada de ser assim, tão ana. Toda ana é um poço sem fundo.

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Vergalhões

Quisera eu hoje
não a poética metalúrgica, operária.
Mas se fundiu meu sentimento
e eu o derramo em formas
e faço versos em escala.

Quisera eu hoje
não a caldeira ígnea no peito
mas a precisão do maçarico
a delicadeza da chama controlada.
Mas minha alma ebule em milhões de graus.
explosiva, descontrolada, superfície de sol.

Já fui ourives, eu sei.
já lapidei palavras, fiz poemas.
Eu já fiz arte, eu quase sei.
Mas belo dia o que era ouro virou lata
e aconteceu de tu levares minhas gemas.

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Nina

O telefone tocou e por um acaso repousava na mão de dela, que estava sentada tediosamente com os cotovelos apoiados nos joelhos e observava um tanto absorta uma carreira de formigas que subiam pela parede. Verdade, a cor verde é calmante, concluiu antes de dizer alô.

Precisava mesmo de paredes verdes ao ouvir a voz que soava do outro lado da linha, pois para aquela voz havia amor e ódio e desejo e desprezo. Tremeu e esse foi seu único movimento até que ele terminasse de falar e tudo que ele pode ouvir de sua boca foram sins, nãos e ahans. Não havia muito mais a ser dito. Fica comigo esta noite.

Nina lembrou de uma canção antiga e cafona. Ela conhece bem os arrependimentos. Ainda permaneceu muda um instante mais por medo do eco inconveniente que denunciaria sua localização constrangedora. Olhou-se no espelho. Decidiu que merecia mais. Cortou um pedaço de papel higiênico e passou entre as pernas.

Desculpe, tenho um compromisso.

Apertou a descarga antes de desligar. E gargalhou.

Nina não é assim para qualquer um. O sangue que desce do ventre de Nina é muito vermelho.

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Cristiana

Se ele desconsidera
a moça o ama.
Se ele se desobriga
a moça o ama.
Ainda com dor de barriga
a moça o ama.

Ama de cara feia,
de mau humor,
descabelado e com olheiras.
Mesmo na segunda-feira,
a moça o ama

Se ele não liga
a moça o ama.
E se ele some
a moça o ama.
Ainda com cara de fome
a moça o ama.

Ama enquanto espera
Enquanto desespera
Triste e sozinha,
nas noites de lua nova,
a moça o ama.

Se confunde nomes,
a moça o ama.
Com qualquer vagabunda,
a moça o ama.
Ainda com cara de bunda,
a moça o ama.

Eu conheço a moça.
A moça não precisa
mas ama.
Ama porque quer,
porque ama.

Admiro a moça.

A moça
ama o amor que suporta.

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Correspondência Violada

Márcio,

ando silenciosa como a morte, eu sei. Algo acontece que não entendo bem, fumo demais em parapeitos de varandas devassadas e tenho vontade de berrar palavrões ao vento.O tempo não é um ente justo, ele tem sido mesmo um carrasco e me açoita com o látego da solidão e não falo da solidão nostálgica permeada de inventividades e esperas. Minha criatividade acabou, acho.

O tempo me deu o vazio. Me arrancou dos braços da poesia como em um parto a fórceps e breve, você poderá perceber meus traumas, quando eu começar a adolescer nesse amadurecer literário. Eu vou me revoltar Márcio, você vai ver. E a poesia, neta da poesia que me pariu, há de me achar, belo dia, uma mãe ultrapassada. E os versos meus maridos talvez se riam de nossos conflitos fumando charutos de péssima qualidade. Minhas metáforas não fazem sentido, me perdoe. Perdi a mão para essa coisa também. E o ar. Corticóides.

Taquei pedras nas vidraças da nossa casa, ando de mal com reflexos até mesmo quando pinto demais os olhos e deixo os lábios entre abertos. Fiquei olhando por muito tempo os estilhaços. E Alikan me encarava assustado e recriminador do lado de dentro, mas não saiu. Ficou lá cuidando que tudo permanecesse no mesmo lugar de sempre inclusive o divã sob a clarabóia. O Índio Sebastião é dedicado com meu jardim, as flores estão belas, ele plantou miosótis e reclama da nossa ausência. Diz que a casa sente falta do cheiro do teu chá e das minhas histórias absurdas. Ele sabe de coisas que eu não sei. Disse-lhe que desaprendi a mentir e ele replicou revelando-me que nada é cem porcento verdade uma vez que a gente abre a boca e conta.

E mais uma vez calei enquanto colhia alecrins para colocar no azeite.

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Ibizas

No sonho
estranho
cores de espanha
e você
de toalha laranja.
Café no ar
manhãs
de se
experimentar
El Mar.

Não está.

Então
não fale,
cale
os ruídos,
não espere
o despertador
tocar.
Eu acordo
picante,
com fome
desses sabores
que não têm
ali na esquina
pra comprar.

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