Nina
O telefone tocou e por um acaso repousava na mão de dela, que estava sentada tediosamente com os cotovelos apoiados nos joelhos e observava um tanto absorta uma carreira de formigas que subiam pela parede. Verdade, a cor verde é calmante, concluiu antes de dizer alô.
Precisava mesmo de paredes verdes ao ouvir a voz que soava do outro lado da linha, pois para aquela voz havia amor e ódio e desejo e desprezo. Tremeu e esse foi seu único movimento até que ele terminasse de falar e tudo que ele pode ouvir de sua boca foram sins, nãos e ahans. Não havia muito mais a ser dito. Fica comigo esta noite.
Nina lembrou de uma canção antiga e cafona. Ela conhece bem os arrependimentos. Ainda permaneceu muda um instante mais por medo do eco inconveniente que denunciaria sua localização constrangedora. Olhou-se no espelho. Decidiu que merecia mais. Cortou um pedaço de papel higiênico e passou entre as pernas.
Desculpe, tenho um compromisso.
Apertou a descarga antes de desligar. E gargalhou.
Nina não é assim para qualquer um. O sangue que desce do ventre de Nina é muito vermelho.
© 2004, Ana Mangeon. All rights reserved.
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