Archive for May, 2004
Correspondência Violada
Você tem razão, e não haveria de ser diferente, pois a sua inventividade é sempre como um bom presságio. Eu estou feliz. E se lhe digo isso é porque não me apraz os seus suspiros tristonhos, esses ventinhos quentes que ficam por aí anunciando que algo não vai bem, elevando a umidade do ar. Não chova amigo, não chova.
Enfim vi-me a mala arrumada, azul, estufada como uma elefanta no final de gestação.. Coloquei lá dentro meia dúzias de camisetas coloridas e uns jeans e uma jaqueta de couro que nem é muito a minha cara mas consegue aplacar a contento os ventos mais frios. O resto do espaço, preenchi com badulaques, presentinhos dos amigos, livros, cds e papéis de carta. E essas miudezas me são uma esperança de voltar melhor, porém não outra.
Decidi que não corto mais meus cabelos antes da volta porque lembrei gostava quando aqueles italianos me chamavam de bambolina e eu estranhava e franzia a testa, pois nunca ninguém me havia chamado de bonequinha na vida. Eu adoço lá Márcio, é engraçado.
E dessa vez, acho que fico rapaduramente doce. Deixei as amarguras do coração fora da minha bagagem. Baixei a guarda de novo para as pequenas singelezas do dia a dia e elas vão me nocautear com certeza e eu vou me entorpecer desses murros de beleza e lembrar em cada um deles que eu só devo pensar que vale a pena.
Sei que quando eu à noite eu me esconder na popa daquele navio para acender meus cigarros, eu vou olhar o oceano e rir de mim. E talvez eu chore uma lágrima, emocionada e envaidecida de me sentir assim, tão livre.
A minha mala está muito cheia Márcio, chega a ser patética quase explodindo. Mas meu coração, (ê laiá!) esse está faxinado, pintado, vazio e tem vista para o mar.
Torce por mim. Volto rápido.
Um beijo grande
Ana
No commentsVirtual
Sem essa de e-mail!
Quero-te ao vivo.
Quero-te inteiro.
Para ser sincera
Quero-te um e meio!
Correspondência Violada
Minha alma não está mais aqui porém o corpo resiste ainda mais três dias. Aquelas palavras é que teimaram em partir mais cedo nessa minha atabalhoada ansiedade por novas histórias.
Nesses meus últimos momentos em casa, que é a casa de meus pais, quero ser-lhes companhia tentando amenizar-lhes as saudades que virão. Para pais somos sempre garotinhos, Márcio. E eles nos soltam os cabrestos sempre um tantinho incrédulos na nossa capacidade de voar.
Resolvi também decretar-me, por assim dizer, partida, porque meu coração estúpido almeja, em vão, a despedida dos amores tortos que eu coloquei na bagagem para pensar nos momentos em que eu duvidar da minha condição humana. Acho que nunca lhe segredei isso, mas há dias por lá, que a gente esquece que é gente e vira coisa.
E amor, ainda que errado, é capricho de pessoa…
Nos vemos depois do último compasso.
Beijos
Ana
PS: Comprei uma mochila pra carregar o livro que você me deu quando houver um banco livre, numa praça velha, numa outra língua, admirando primaveras.
No commentsVersinhos em off
Meu que se preze
é perfeito.
Em tese.
Correspondência Violada
Ontem um amigo me disse uma coisa que não vai me sair tão cedo da cabeça. Ele falou, assim, num tom jocoso, que eu vivo me estranhando. E é verdade. Eu encasqueto com as coisas minhas de um jeito que nem eu sei explicar. Por exemplo, não lhe escrevi mais cartas pois, houve uma hora, que eu comecei a achar que estava lhe dando um impressão distorcida do que eu sou. Mas, de repente, hoje de manhã quando acordei, meus cabelos estavam em pé, pois eu decidi deixa-los crescer e eles começam a se rebelar. Meus olhos tinham o inchaço da noite não dormida e do pranto que vem, naturalmente, nessas madrugadas que a gente entre adormecer e ficar pensando, decide pela reflexão. Foi assim que me olhei no espelho bobalhona, de pijama azul e por um segundo quis ser tão bonita quando você me enxergava. E quase acreditei que você podia ter razão.
Meu problema é querer ser como as meninas dos reclames de hugo boss.
Um beijo
Ana
ps: já comprei um bloco grande de papel de carta, canetas pretas e um monte de envelopes brancos. Não lhe deixa ansioso essa iminência de manuscritos?
No commentsSempre-viva
Façamos assim:
quando eu cansar de pecar,
e você puder entender;
quando eu parar de vagar
e você desistir de fugir;
me dá seu perdão
que eu nos planto um jardim.