Correspondência Violada
Você tem razão, e não haveria de ser diferente, pois a sua inventividade é sempre como um bom presságio. Eu estou feliz. E se lhe digo isso é porque não me apraz os seus suspiros tristonhos, esses ventinhos quentes que ficam por aí anunciando que algo não vai bem, elevando a umidade do ar. Não chova amigo, não chova.
Enfim vi-me a mala arrumada, azul, estufada como uma elefanta no final de gestação.. Coloquei lá dentro meia dúzias de camisetas coloridas e uns jeans e uma jaqueta de couro que nem é muito a minha cara mas consegue aplacar a contento os ventos mais frios. O resto do espaço, preenchi com badulaques, presentinhos dos amigos, livros, cds e papéis de carta. E essas miudezas me são uma esperança de voltar melhor, porém não outra.
Decidi que não corto mais meus cabelos antes da volta porque lembrei gostava quando aqueles italianos me chamavam de bambolina e eu estranhava e franzia a testa, pois nunca ninguém me havia chamado de bonequinha na vida. Eu adoço lá Márcio, é engraçado.
E dessa vez, acho que fico rapaduramente doce. Deixei as amarguras do coração fora da minha bagagem. Baixei a guarda de novo para as pequenas singelezas do dia a dia e elas vão me nocautear com certeza e eu vou me entorpecer desses murros de beleza e lembrar em cada um deles que eu só devo pensar que vale a pena.
Sei que quando eu à noite eu me esconder na popa daquele navio para acender meus cigarros, eu vou olhar o oceano e rir de mim. E talvez eu chore uma lágrima, emocionada e envaidecida de me sentir assim, tão livre.
A minha mala está muito cheia Márcio, chega a ser patética quase explodindo. Mas meu coração, (ê laiá!) esse está faxinado, pintado, vazio e tem vista para o mar.
Torce por mim. Volto rápido.
Um beijo grande
Ana
© 2004, Ana Mangeon. All rights reserved.
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