Caffe Amaro
O momento que foi o começo e era um começo que já previa o fim foi quando depois de muito tempo já saído do chuveiro, depois de muita conversa divertida e franca, depois de uns goles de cerveja alemã, depois de eu já lhe ter revirados os discos, as fotos, as paredes e os cheiros da sua casa, estando apenas enrolado numa toalha branca ele me pergunta como quem só quer saber que horas são o que eu faço que ainda estou vestida eu respondo sorrindo: é que você ainda não me despiu. E depois penso que essa cena deveria estar num filme bom para poucos espectatores e ele me arranca a camiseta vermelha pela cabeça. E esse era um começo que era um bom começo tão bom que por alguns momentos eu cheguei a esquecer que para todo começo existe um fim.
E em fim, era o fim. Ficou me olhando ainda um tanto arfante, incomodado com as lentes que lhes fazia arder os olhos e apesar do incomodo me fitava profundamente como se me pudesse violar as retinas e mergulhar nos meus pensamentos agora tão estúpidos. Eu pensava num único pelo branco que havia encontado na sua barba e ria dele me dizer que era um velho menino – tudo isso como uma voz assombrosa dentro da minha cabeça pois envolvidos com a nossa mútua contemplação mantinhamos o mais sepulcral dos silêncios. Ele continuava perdido me observando muito de perto com os cotovelos apoiados na cama repousando todo o peso do seu corpo sobre o meu sem qualquer pudor, até porque ele não era dado à esses pudores de depois. Nem de antes. O bonito nele é que ele sempre era, sem fintas, sem estratagemas. Estar ali não era um jogo. Estar ali era estar e isso bastava.
Suspirou e me sorriu passando de leve os dedos pelo meu rosto. Enfim disse algo, perguntou se eu lhe esqueceria. Não posso. Você já está escrito. Me chamou de minha, me mordeu o nariz e se jogou para o lado enroscando-se no lençol azul.
-Que horas você acorda?
-Cinco e meia.
-Vem me acordar às oito?
-Ok, capo!
-Me traz café?
-Trago, abusado!
-Eu gosto de café amargo.
E eu me guardava no espelho, o rimel que me borrava os olhos, quando murmurei quase como quem suspira: eu sei…
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