Archive for October, 2004

A casa dos não-amores

Talvez a frase “precisamos falar de coisas sérias” significasse alguma preocupação do meu amigo. Talvez fosse só mais uma de suas piadas. Mas crendo na preocupação legítima, eu disse não se preocupe. E ele sorriu um sorriso incerto e lateral.

“Não se preocupe amigo, eu sei que eu devaneio. Eu sei que aqui nesta casa o ar é empestado de vadiagem e que essa doença é tão grave e tão aguda que contamina até o mais gentil dos gajos. Tenho olfato. Sinto por todos os lados o odor da carne queimada no atrito nas noites em claro, dos lençóis ásperos. O ar pesa, tem cheio de náusea, um tanto de cheiro de cloro. O ar pesa, a gente sucumbe e acaba que se deita. Mas por que uma vez que a gente se deixa vencer não fazer da coisa uma diversão faceira, um riso, uma confidência menos importante. Por que não deixar a verve ser não a palavra chula, a definição grosseira, o falo, o orifício mas um suspiro aliviado depois de um dia duro de trabalho ou alguma poesia escondida na cumplicidade de não precisar dizer. Por que não dar boa noite antes de virar para o lado e receber por recompensa um beijo carinhoso nos lábios.

Eu sei amigo, que pode ser que eu leve anos remoendo essas memórias e talvez o que eu conte desses dias aos meus netos seja uma história que não é a que você na consternação paternal lê. Talvez ele mesmo nunca a relate a ninguém, por segredo ou por falta de memória, ou talvez porque não importe. Capaz que ele me esqueça o nome mas lembre-se de onde eu vim.

Eu posso dizer que eu me apaixonei naqueles dias, naquelas horas escondidas, naquelas escapadas e apaixonar assim, sem compromisso com a paixão, foi um veio de água doce no meio de todo aquele mar bravio.

Fala-se demais nessa cidade, talvez eu esteja mal falada, talvez riam de mim pelas costas. Talvez estejam por aí dizendo: ela foi usada. Mas nessa situações de alcova, ninguém é usado e não usa. Eu também usei.

Dormia ele, comigo, querendo meu corpo, eu eu lhe dava o riso de brinde. Dormi, eu, com ele, querendo ilusão, mas seu corpo veio bem a calhar. Bobagem achar que nesta cidade pode haver pureza, aí toda forma de amor é parasita. Eu não sou assim tão inocente.

Não se preocupe amigo, de verdade. Eu sou dessas almas criativas, desses olhos que precisam ver algo além. Eu sou desses sentimentos pequenos que fermentam e transbordam.

E todas as minhas paixões, sou eu quem invento.”

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Durante, depois.

Do olhar a conseqüência é o tato.
E lava é sangue, água é saliva.
É aguardente, desidrata.
E liberta a alma da carne e o corpo trepida:
é frágil, o invólucro.
As vaidades quebram,
desprendem-se os cacos
que invadem mas não ferem.
Não nos enxergamos nos espelhos.
Uma existência secular é esquecida,
e não precisamos premeditar o próximo segundo.

São texturas, cheiros, gostos,
sons, umidades, temperaturas.
Delícias e agruras.
Amores de perfídia que sucumbem ao êxtase
garantido pelo exaustivo ensaio -
conhecemos todos os caminhos-
Coreografamos orgasmos
e a pantomima embalada pelo silêncio seguinte:
a mão suave a passear pelos cabelos,
a face fazendo do peito, o ninho.
Sussurros, suspiros, afagos e sorrisos.
Mecanicismos que um dia confundimos com carinho.

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Despedida

Eu o tempo,
Ele tudo.
Eu um ponto,
Ele o mundo.
Eu depois,
Ele neste segundo.

Eu aqui,
Ele além.
Eu medo,
Ele também.

Eu à distância
Ele: solidão.

Eu o leme
que escapou
de suas mãos.

-Vai amor;
eu já soltei suas amarras.

(revisto em 24/10/2011)

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Correspondência Violada

Márcio,

enfim tomei coragem e fui encarar a nossa casa. Tive medo que ela não me recebesse bem, me fechasse as portas e as janelas e as cortinas. Tive medo que ela não tivesse guardado as nossas lembranças, que as vidraças tivessem sido todas destruídas, porque eu sei que nossa casa percebe mesmo de longe os meus vendavais. Um furacão passou por aqui Márcio e ao contrário das brisas que me levam, ele fincou minhas raizes no chão.

Sebastião não estava lá, nem Alikam, nem as tulipas amarelas nem os girassóis. Das metáforas, Márcio, não restaram sequer as sementes. Eu encontrei espaço pois não havia nem cidades nem montanhas, nem relva, nem concreto, nem nada. Olhei em volta e onde deviam estar nossos alicerces encontrei lacunas. Eu procurei você, mas talvez você já esteja num outro lugar. Eu quis me esconder na casa invisível que a gente contruiu, chorar la, quietinha afundada nas almofadas do sofá vermelho diante da lareira, no inverno que eu criaria pra mim ali dentro, mas eu a procurei e não mais a vi. Não sei se foi ela que caiu ou se são meus olhos que já não a podem ver.

Passou um furacão Márcio, daqueles que destroem tudo, daqueles que obrigam a gente a partir do zero outra vez. Passou um furacão que me fez voar lá no alto e depois me cuspiu no chão.

E ele me trouxe de volta pra cá.

Ana

ps: ando obcecada por canções que falam de nomes e amores. Hoje, João e Maria.

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Inocente

Não lhe culpo, amor.
Por ser assim tão óbvio
Por eu lhe poder medir as falas
Prever suas próximas palavras.
Não lhe culpo por eu saber
O passo seguinte que
Você quer dar e não dá.
O seu estancar, a meia volta.
Aquela frase que vira a reticência
Eu sei sempre o que quer dizer.
A ausência mantida
O reencontro programado
A revolta, previsível, também era.
Como o corte, aquele final que nunca termina
Porque lhe dar prazer me manter cativa
Mesmo quando sequer você me quer.
Tudo para você é no momento
Tudo no seu mundo dura ou acaba, por enquanto.
Tudo é sempre me deixar aqui esperando.

Não lhe culpo amor, culpo a mim
Eu que lhe permiti ser comigo assim
E fiquei aqui, prisioneira,
Nessa cela de porta aberta, sem tranca
Sangrando uma dor que nunca se estanca
Morrendo, fugindo, chorando rios
Clamando um bocado de ignorância
Um não saber de se sofrer sobremaneira
Um apagar, um esquecer, um enlouquecer.
Mas me é sempre tudo tão evidente
Que eu não lhe culpo, amor.
Das minhas certezas você é inocente
A culpa é minha, fui eu que lhe inventei
E fui eu que me entreguei, e fui que seu amor roguei
E fui eu que me flagelei, e fui eu que lhe estudei
Fui eu, eu sei, fui eu que lhe amei sem pedir licença
Sem fazer silêncio, fui eu que alardeei a dor
Fui eu que confundi obsessão com amor.

Não lhe culpo, amor, nem ao destino
Não lhe culpo pelo desconsolo que trago comigo
Talvez seja a paz, enfim, agora
Sem mais palavras, sem mais delongas
Um corte, um fim, uma morte.
Não lhe culpo amor por não me amar
Por me dilacerar, por me ignorar
Por ser cruel, por ser mordaz
Pelos dias de pranto, pelo sono perdido
Eu não lhe culpo pelo jogo
Eu não lhe culpo nem por parte dessa dor
Nem pelo todo.
Eu não lhe culpo por estender o início
Por estimular o meio.
Eu não lhe culpo por nada, por nunca

Eu não lhe culpo nem mesmo
pelas horas em que eu lhe odeio.

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Tome-me de assalto

Tudo verte em meu olhar
para o espelho d’um outro olhar
que alcance minha fragilidade mais escondida.

E me tome nos braços
e me deixe calada e entorpecida
Imóvel e incapaz de sair.

Quero alguém
que vede todas as rotas de fuga
que criei para evadir de mim.

O negócio, moço,
é invadir minha vida de repente
e me deixar, assustada, assistir.

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