Correspondência Violada
Márcio,
não existe atraso, por isso a necessidade de justificativa se diluiu na alegria do retorno. Eu voltei alegre como um passarinho que descobre as asas e ainda assim, por hora, prefere ciscar o chão. Descobri tantas coisas Márcio, ali, na clausura, que mal sei começar a falar delas sem que me pegue gaguejando ou misturando meu português prolixo com esse italiano vulgar que eu aprendi a falar. A Itália me venceu Márcio, estranhamente, sem perceber, eu já fazia parte de lá. Notei isso quando eu vinha carregando minha mala de trinta quilos pelas ruas de Genova, procurando o pardieiro onde devia dormir a espera do vôo que me levaria a outro vôo que me levaria a outro e nada disso me incomodava de verdade porque todos aqueles tons de bege e marrom tinham um contraste bonito com a luz amarela do outono que acabou de começar. Coloquei a mala no chão, sentei em cima e senti minhas raízes tentarem penetrar no chão velho daquela parte do velho mundo. Sorte elas serem preguiçosas, não rompem nem mesmo o mais macio dos terrenos, e se deitaram ali espalhadas aproveitando o calor do sol.
Quando avistei do alto uma São Paulo cinza, pensei que era essa sua cor natural e sorri. Mas o Rio também estava cinza e frio, talvez tivesse descoberto minhas estripulias pela Sicília e se tenha enciumado e armou para mim um bico chuvoso e não houve te amo que fizesse o azul se expor e talvez ninguém entenda nunca que não há razão para ciúmes quando o problema é que meu coração é grande demais para contentar-se com um amor só. E é por isso que eu flerto com a Itália, assim, num princípio de encantamento como a mesma atração tranqüila e inexplicável pelo fotografo milanês de botas de caubói – isso é uma outra história boa – não sendo que isso signifique amar menos o meu país ou as minhas verdades e mentiras que eu construí por essas bandas de cá, como a outra história boa não significa amar menos o meu moleque enfezado a quem eu convidei para dançar um tango em Buenos Aires e ele, mesmo não sabendo dançar, disse sim eu vou aonde você me levar. E foi assim que eu, como em qualquer boa dança lhe disse você guia e ele decidiu que em um mês a gente volta pra lá.
Esqueçamos os mares Márcio, os do norte, os negros,os adriáticos e os mediterrâneos, pois desses mares já provei de todos os sais. Banhos de sol para as raízes todos os dias. E não se preocupe amigo, elas não se fixam, não se permitem, pois sei que elas ainda querem o mundo. E eu as obedeço.
Ana
© 2004, ana. All rights reserved.
DigaNo comments yet. Be the first.
Leave a reply