Correspondência Violada
Márcio,
enfim tomei coragem e fui encarar a nossa casa. Tive medo que ela não me recebesse bem, me fechasse as portas e as janelas e as cortinas. Tive medo que ela não tivesse guardado as nossas lembranças, que as vidraças tivessem sido todas destruídas, porque eu sei que nossa casa percebe mesmo de longe os meus vendavais. Um furacão passou por aqui Márcio e ao contrário das brisas que me levam, ele fincou minhas raizes no chão.
Sebastião não estava lá, nem Alikam, nem as tulipas amarelas nem os girassóis. Das metáforas, Márcio, não restaram sequer as sementes. Eu encontrei espaço pois não havia nem cidades nem montanhas, nem relva, nem concreto, nem nada. Olhei em volta e onde deviam estar nossos alicerces encontrei lacunas. Eu procurei você, mas talvez você já esteja num outro lugar. Eu quis me esconder na casa invisível que a gente contruiu, chorar la, quietinha afundada nas almofadas do sofá vermelho diante da lareira, no inverno que eu criaria pra mim ali dentro, mas eu a procurei e não mais a vi. Não sei se foi ela que caiu ou se são meus olhos que já não a podem ver.
Passou um furacão Márcio, daqueles que destroem tudo, daqueles que obrigam a gente a partir do zero outra vez. Passou um furacão que me fez voar lá no alto e depois me cuspiu no chão.
E ele me trouxe de volta pra cá.
Ana
ps: ando obcecada por canções que falam de nomes e amores. Hoje, João e Maria.
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