A casa dos não-amores
Talvez a frase “precisamos falar de coisas sérias” significasse alguma preocupação do meu amigo. Talvez fosse só mais uma de suas piadas. Mas crendo na preocupação legítima, eu disse não se preocupe. E ele sorriu um sorriso incerto e lateral.
“Não se preocupe amigo, eu sei que eu devaneio. Eu sei que aqui nesta casa o ar é empestado de vadiagem e que essa doença é tão grave e tão aguda que contamina até o mais gentil dos gajos. Tenho olfato. Sinto por todos os lados o odor da carne queimada no atrito nas noites em claro, dos lençóis ásperos. O ar pesa, tem cheio de náusea, um tanto de cheiro de cloro. O ar pesa, a gente sucumbe e acaba que se deita. Mas por que uma vez que a gente se deixa vencer não fazer da coisa uma diversão faceira, um riso, uma confidência menos importante. Por que não deixar a verve ser não a palavra chula, a definição grosseira, o falo, o orifício mas um suspiro aliviado depois de um dia duro de trabalho ou alguma poesia escondida na cumplicidade de não precisar dizer. Por que não dar boa noite antes de virar para o lado e receber por recompensa um beijo carinhoso nos lábios.
Eu sei amigo, que pode ser que eu leve anos remoendo essas memórias e talvez o que eu conte desses dias aos meus netos seja uma história que não é a que você na consternação paternal lê. Talvez ele mesmo nunca a relate a ninguém, por segredo ou por falta de memória, ou talvez porque não importe. Capaz que ele me esqueça o nome mas lembre-se de onde eu vim.
Eu posso dizer que eu me apaixonei naqueles dias, naquelas horas escondidas, naquelas escapadas e apaixonar assim, sem compromisso com a paixão, foi um veio de água doce no meio de todo aquele mar bravio.
Fala-se demais nessa cidade, talvez eu esteja mal falada, talvez riam de mim pelas costas. Talvez estejam por aí dizendo: ela foi usada. Mas nessa situações de alcova, ninguém é usado e não usa. Eu também usei.
Dormia ele, comigo, querendo meu corpo, eu eu lhe dava o riso de brinde. Dormi, eu, com ele, querendo ilusão, mas seu corpo veio bem a calhar. Bobagem achar que nesta cidade pode haver pureza, aí toda forma de amor é parasita. Eu não sou assim tão inocente.
Não se preocupe amigo, de verdade. Eu sou dessas almas criativas, desses olhos que precisam ver algo além. Eu sou desses sentimentos pequenos que fermentam e transbordam.
E todas as minhas paixões, sou eu quem invento.”
© 2004, ana. All rights reserved.
DigaNo comments yet. Be the first.
Leave a reply