Archive for November, 2004
O que querem de mim?
Os que olham, flerte.
Os que choram, ombro.
Os que sonham, dia.
Os que tocam, pele.
Os que ouvem, lábia.
Os que calam, beijo.
Os que pedem, nunca.
Os que somem, busca.
Os que medram, rua.
Os que fingem, nojo.
Os que inquirem, jogo.
Os que provocam, ato
Os que contestam, fato.
Os que perdem, mapa
Os que agridem, tapa.
Os que perseguem, caça
Os que vislumbram, graça
Os que domam, força.
O que provam, gosto.
Os que viajam, porto.
Os que desejam, sexo
Os que amam, nexo…
Das coisas que a gente sempre sabe. (revisto)
A gente sabe, a gente sempre sabe
quando a coisa está bem ou está mal.
Quando o olho perde o brilho, quando o sorriso ilumina.
A gente sempre sabe quando a mão quer ou não a mão,
quando a presença é ou não mais é imprescindível.
A gente sempre sabe o limite da paixão,
onde transmuta em carinho,
quando vira só admiração
e quando já estava mesmo tudo perdido.
A gente sabe, a gente sempre sabe.
A gente sempre sabe a hora de avançar e a hora de recuar.
A gente sempre sabe reconhecer subterfúgios e estratagemas.
A gente sempre sabe o pulo do gato e a rota de fuga.
A gente sempre sabe o início, o meio e o fim.
A gente sabe, a gente sempre sabe.
E a gente sempre sabe que às vezes a gente corta,
tenta arrancar, lava com álcool e removedor,
mas a coisa fica ainda ali, incubada, latente,
aguardando uma distração para se manifestar.
São velhas conhecidas as mentiras que a gente inventa.
A gente sabe, a gente sempre sabe quando a fonte seca
e quando ainda há água para nossa sede eterna.
Ainda sobre a espera
Vou lhe dizer que sim, mas se lhe digo, digo por não mais querer sufocar sentimentos, nem os pequenos, nem os prescritos. E talvez um dia você me traga um buquê de girassóis frescos e alguma promessa de um verão ameno.
Eu vou lhe dizer que quero e aguardar somente um suspiro dominical de tédio, olhos úmidos de contentamento e filmes antigos que tenham canções bonitas.
Eu vou dizer: vem! E pode ser que, talvez, você venha sem malas pesadas nem memórias comprometidas com o passado. E poderemos construir algo do zero, ou do menos ou poderemos não construir nada e apenas nos acomodar sob o sol de algum entardecer, em algum gramado verde, em algum lugar do mundo.
Eu vou responder aos seus chamados quando você me chamar. E lhe chamarei todas as vezes que eu souber que você espera o meu chamado. Mas pode ser que não nos precisemos de sinais. Poderemos estar, tranqüilamente, caminhando lado a lado sem palavras.
Eu vou lhe aceitar ao perceber sua chegada e você há de chegar. E não vou precisar nem mesmo lhe abrir a porta, pois assim que você entrar perceberá que já estava. E assim, será a vida: sem planos mirabolantes, sem metas para o próximo ano e sem grandes decepções estacionárias.
Aí, somente então, transbordarei em cascatas de versos doces inaugurando um tempo de romantismos que nunca mais serão vãos.
No commentsMea culpa
Eu erro quando eu sei que está errado
Eu erro dia, não meço a hora
Erro também quando eu acho ajustado.
Eu erro quando excessiva
eu erro quando me recato.
Eu erro a idéia e o ato.
Eu erro a rua, o endereço
eu erro mão, a direção.
Eu erro o fim, o meio. Errei o começo
Eu sempre digo a palavra errada
perco a métrica, esqueço a rima.
Erro também quando não digo nada.
Erro quando sou fina e quando sou escracho
Erro se acaricio ou se esculacho
Erro quando insolente ou quando sou capacho.
Erro se esperança ou se desengano
Erro se sou a mordida ou se sou o açaimo.
Erro quando te esqueço ou se ainda te amo.
Eu erro tudo, eu erro todos.
Erro sem culpa e erro com dolo
Eu erro os meus erros e erro os dos outros
Inúteis os alvos, as miras, as metas
eu chuto na trave, por cima do muro
Eu erro no claro e no escuro.
Eu erro de longe e eu erro perto.
à meia distância sabe-se também que erro.
De tão errada, erro até mesmo quando acerto.
Correspondência Violada
meus pensamentos andam tristes e enigmáticos, por isso as cartas escassas e as conversações monossílábicas. Na verdade, eu passo por um momento de não-pensamento e até mesmo essas palavras que agoram escrevo são um parto difícil e doloroso. Não sei o que dizer amigo, todas as definições parecem vagas e quando você me pergunta como eu estou eu só consigo não conseguir pensar sobre isso e isso não se configura em um não saber, pois o não saber subtende uma refelxão e uma não-resposta. Eu não penso. É estranho meu amigo, eu sei que é muito estranho, mas eu não tenho conseguido filosofar sobre essas coisas desimportantes que eu tanto adoro.
Diante disso resolvi pensar de novo na casa, em Alikan, em Sebastião e na chuva de gelatina que um dia você me prometeu. Tive uma epifania: o tempo passou e a delicadeza se perdeu. Não tem casa, o cão não late, o velho morreu. E chove somente a mesma água fria de todos os dias de verão. Choveu muito por esses dias, choveu torrencialmente mesmo. E eu fiquei olhando passiva, sem me banhar, sem entender.
Não entendo mais essas mensagens Márcio, eu quero as metáforas bonitinhas e as feias também, mas eu não sei onde elas se esconderam. E esse vazio não me deixa nem leve nem triste, incomoda de uma maneira bastante esquisita.
Márcio…eu não. E a esse não deveria seguir-se qualquer verbo mas existe só uma lacuna preguiçosa e perturbadora.
Um beijo
Ana
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