Arquivos de December, 2004
Correspondência Violada
ocorreu-me, sabe-se lá dada de que fonte, uma vontade de deixar meu carro sujo na garagem e andar de ônibus e foi por isso que eu peguei o livro que você me deu e que ficou fora da bagagem e enfiei na bolsa. E foi também por isso que eu coloquei no rosto meus óculos. Não dirigir é dar-me a oportunidade de colocar as leituras em dia.
Não veio o ônibus, mas veio uma van e eu procurei um lugar perto da janela para que pudesse recostar nela minha cabeça apesar dos trupicões das vias mal conservadas. O sacolejar interrompe a leitura as vezes mas é gostoso. Acho que fiquei mal habituada.
Bela hora, sentou-se um senhor do meu lado e num dado momento percebei que ele lia comigo prevendo o virar das páginas nas minhas lambidas nas pontas dos dedos. Parecia-me que lhe era difícil me acompanhar. Decidi então perguntar se podia virar a página e ele fez que sim com a cabeça sem nenhum constrangimento e isso foi uma intimidade muito bonita. Tão bonita, que decidi ler em voz quase alta, e o senhor me ouvia de olhos fechados como que ouve uma prece ou pensa que sonha.
Era hora de descer, quis saber o seu nome. Ele sorriu e me disse Emanuel.
E de repente nevava em Copacabana ao mesmo tempo em que eu realizava que nem toda pobreza se calcula em cifras e que somos estúpidos cada vez que pagamos com moedas esmolas quando podemos oferecer tanto mais. Ouvir naquele sussurro “Emanuel” me fez pensar que a vida podia a qualquer momento ser um desses contos tolos de Natal onde as pessoas de pouca fé como eu se pegam a desconfiar por um segundo da existência de Deus.
No commentsCamila não me deixa dormir na rede
Enfim era o nosso sonho realizado e tínhamos a varanda de frente para o mar. Engraçado como a gente pode sonhar com as mesmas coisas e ter sonhos tão diferentes.
Eu acordo de manhã muito cedo e vejo o sol nascer, depois desço pelas escadas e evitando fazer barulho com minhas chinelas soltas no calcanhar. Guardo pra mim minha alegria matutina, não preciso despertar os vizinhos velhos com suas mazela de meio-dia. Atravesso a rua, faço barras, corro, mergulho no mar que não é limpo, mas ainda é mar. Volto para casa como um menininho novo e encontro Camila ainda dormindo muito profundamente. Preparo bananas com mel e aveia, depois lavo o prato. Enquanto isso, Camila sonha coisas. E eu tomo banho no banheiro de empregada para que o som do chuveiro não lhe carregue seus devaneios adormecidos de lantejoulas.
Não sei a que horas Camila acorda, mas deve ser lá pelas dez. Não sei que horas ela levanta, mas estou seguro que se lamenta dos sulcos profundos que os lençóis deixam na sua cara. Isso sem falar de outras marcas do tempo. Camila levanta descabelada e tonta, olha de soslaio pela varanda um sol que já está alto. Reclama do calor, fecha as cortinas e liga o ar condicionado. Ouve os recados na secretária eletrônica, se arruma com pressa, toma leite desnatado, calça saltos. Deixa um bilhete enfático para a empregada e desce de elevador. E a empregada nunca faz as comidas simples que eu gosto.
Eu trago meus amigos e sento na minha varanda com meu violão. Camila fica na sala com suas amigas, e bebe vinho enquanto bebemos água mineral. E quando todos vão embora eu armo a minha rede para olhar as estrelas. Camila vem de lençóis de seda e se deita. E resmunga quando eu ressono.
Camila não me deixa dormir na rede, por isso eu deito ao seu lado sem muita conversa, olho seus cachos invadindo meu travesseiro e ela a fingir que dorme. Giro para ela minhas costas, ela se move.
E quando eu enfim durmo Camila se espalha toda nessa ansiedade de solteira que se revela nos estágios mais profundos do sono.
É, Camila não me deixa dormir na rede. Mas todos os dias ela me joga no chão.
No commentsFragmento 3.6
Você! Indício.
Olhar, omisso.
Eu? Resquício.
Noites Pardas
Em Copacabana,
à noite,
todos os gatos,
são gatas.
Fragmento 2.1
Inventei
de
ir ver
leon,
e agora
victor
me
evita.
Automedicação
Por favor,
um comprimido para dor de cabeça
e uma ampola de Esqueça!
Apetite Sexual
Sobre minha vida sexual ?
Ela é perfeita.
Tenho um preto e um branco.
Gostosíssimos!
Os dois se chamam Toblerone.
No commentsFragmento 1.1
Será que meu bom senso
geraria nosso consenso?
Amores Gramaticais
Não quero mais esses amores gramaticais
onde minha busca incansável pelo predicado perfeito
faz de mim apenas mais uma oração sem sujeito.