Camila não me deixa dormir na rede
Enfim era o nosso sonho realizado e tínhamos a varanda de frente para o mar. Engraçado como a gente pode sonhar com as mesmas coisas e ter sonhos tão diferentes.
Eu acordo de manhã muito cedo e vejo o sol nascer, depois desço pelas escadas e evitando fazer barulho com minhas chinelas soltas no calcanhar. Guardo pra mim minha alegria matutina, não preciso despertar os vizinhos velhos com suas mazela de meio-dia. Atravesso a rua, faço barras, corro, mergulho no mar que não é limpo, mas ainda é mar. Volto para casa como um menininho novo e encontro Camila ainda dormindo muito profundamente. Preparo bananas com mel e aveia, depois lavo o prato. Enquanto isso, Camila sonha coisas. E eu tomo banho no banheiro de empregada para que o som do chuveiro não lhe carregue seus devaneios adormecidos de lantejoulas.
Não sei a que horas Camila acorda, mas deve ser lá pelas dez. Não sei que horas ela levanta, mas estou seguro que se lamenta dos sulcos profundos que os lençóis deixam na sua cara. Isso sem falar de outras marcas do tempo. Camila levanta descabelada e tonta, olha de soslaio pela varanda um sol que já está alto. Reclama do calor, fecha as cortinas e liga o ar condicionado. Ouve os recados na secretária eletrônica, se arruma com pressa, toma leite desnatado, calça saltos. Deixa um bilhete enfático para a empregada e desce de elevador. E a empregada nunca faz as comidas simples que eu gosto.
Eu trago meus amigos e sento na minha varanda com meu violão. Camila fica na sala com suas amigas, e bebe vinho enquanto bebemos água mineral. E quando todos vão embora eu armo a minha rede para olhar as estrelas. Camila vem de lençóis de seda e se deita. E resmunga quando eu ressono.
Camila não me deixa dormir na rede, por isso eu deito ao seu lado sem muita conversa, olho seus cachos invadindo meu travesseiro e ela a fingir que dorme. Giro para ela minhas costas, ela se move.
E quando eu enfim durmo Camila se espalha toda nessa ansiedade de solteira que se revela nos estágios mais profundos do sono.
É, Camila não me deixa dormir na rede. Mas todos os dias ela me joga no chão.
© 2004, Ana Mangeon. All rights reserved.
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