Correspondência Violada
ocorreu-me, sabe-se lá dada de que fonte, uma vontade de deixar meu carro sujo na garagem e andar de ônibus e foi por isso que eu peguei o livro que você me deu e que ficou fora da bagagem e enfiei na bolsa. E foi também por isso que eu coloquei no rosto meus óculos. Não dirigir é dar-me a oportunidade de colocar as leituras em dia.
Não veio o ônibus, mas veio uma van e eu procurei um lugar perto da janela para que pudesse recostar nela minha cabeça apesar dos trupicões das vias mal conservadas. O sacolejar interrompe a leitura as vezes mas é gostoso. Acho que fiquei mal habituada.
Bela hora, sentou-se um senhor do meu lado e num dado momento percebei que ele lia comigo prevendo o virar das páginas nas minhas lambidas nas pontas dos dedos. Parecia-me que lhe era difícil me acompanhar. Decidi então perguntar se podia virar a página e ele fez que sim com a cabeça sem nenhum constrangimento e isso foi uma intimidade muito bonita. Tão bonita, que decidi ler em voz quase alta, e o senhor me ouvia de olhos fechados como que ouve uma prece ou pensa que sonha.
Era hora de descer, quis saber o seu nome. Ele sorriu e me disse Emanuel.
E de repente nevava em Copacabana ao mesmo tempo em que eu realizava que nem toda pobreza se calcula em cifras e que somos estúpidos cada vez que pagamos com moedas esmolas quando podemos oferecer tanto mais. Ouvir naquele sussurro “Emanuel” me fez pensar que a vida podia a qualquer momento ser um desses contos tolos de Natal onde as pessoas de pouca fé como eu se pegam a desconfiar por um segundo da existência de Deus.
© 2004, Ana Mangeon. All rights reserved.
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