Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de February, 2005

Brisa

Vôo.
Eu sou a pena leve
Que se destacou de suas asas.

Pairo
Não pouso.

Plano na direção
Inexata do momento.

Prego a mentira
Do tempo.

Sou uma pluma tonta
Nessa sua estrada etérea
Que muda o rumo
cada vez que muda o vento

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Correspondência Violada

Querido Márcio,

ainda é fresco a ar da graça de nossa última conversa e talvez por isso eu não consiga me livrar da idéia da recém descoberta vileza dos cajus. Confesso, tenho coisas com cajus, eles me remetem a imagens singelas da minha infância.

Lembro-me do cajueiro grande onde a gente se pendurava no sítio de meu avô, a gente, eu, meus primos, enfim. Ele ficava num barranco pequeno demais para as suas raízes, colado no muro da casa, e a casa se encarrapitava no alto de uma pequena colina que parecia muito maior aos meus olhos infantis. Havia outros cajueiros para dentro das porteiras que levavam também ao canavial, à horta de minha avó, ao pé de urucum onde a gente se melecava de vermelho. Á pitangueira na porta do galinheiro e ao jabuticabal que um dia as formigas consumiram. Havia em meio a tantas plantas e árvores outros tantos cajueiros maiores e mais frondosos. Mas aquele era o mais curioso, se equilibrava faceiro no barranco como um gigante de pés pequenos. E era nele que a gente se empoleirava e era dele que vinha o suco gostoso para o almoço.

Era meu avô quem fazia o suco. Separava as castanhas com jeito para não amargar o sumo. Enrolava as frutas num lenço branco uma a uma e ia espremendo na jarra. Ensinava: sem o lenço, fica com cica. Minha avó juntava as castanhas numa caixinha e dizia que castanha não presta se a gente não põe pra secar. Depois nos perguntava: o que é a fruta, o caju ou a castanha? E a gente respondia em coro porque já sabia da resposta.

Fico pensando se a gente ? a gente todo mundo mesmo- não trata gente como caju. Pega o que está à mão, pronto de cada um, espreme, tira o suco, se empapuça e joga a poupa fora. Se a gente não esquece a castanha no sol secando até que ela fique esturricada e definhe sem sabor. Fico imaginando se a gente não morde o caju só porque preparar a castanha dá mesmo muito trabalho, se a gente tem esse jeito de arrancar a castanha sem amargar o suco.

Ah Márcio, quantas não são as vezes que a gente se atrai pelo cheiro, pela cor e pelo sumo do caju e simplesmente descarta a castanha esquecendo-nos de tão inebriados que na verdade a castanha é que é a fruta?

Ana

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Confetes

Abri a geladeira e não parecia geladeira de homem solteiro. Tinha frutas, as garrafas de água eram limpas e eu fiquei observando pois éramos quase desconhecidos e eu tinha fome. Ri um pouco segurando a porta aberta enquanto o cachorro que tinha fugido do quintal puxava a bainha da minha calça e latia querendo brincadeira e eu lhe dava bom dia, quase íntima das pequenas rotinas matinais daquela casa onde nunca havia estado antes. Por fim, fiz qualquer comentário sobre a arrumação refrigerador e ele me disse que era um cara muito organizado. E lho disse porque, provavelmente, essa era uma de suas maiores vaidades.

Foi aí que eu fechei a porta fria e me recostei nela e fiquei olhando para ele com aquele olhar de quem vai fazer uma pergunta e ele fez um movimento com o queixo para cima que me pareceu significar: diz aí! E eu disse.

-Moço, casa comigo?

Ele que saía da cozinha girou-se assustado de volta com um olhar interrogativo e me estava sendo muito divertida aquela comunicação forjada em pequenos gestos. Eu sei que intimidade em varejo assusta, mas a gente estava se entendendo e isso era fabuloso. Repeti.

-Moço, casa comigo.

Então ele descongelou, me segurou pelos cabelos da nuca de leve, ameaçou me beijar a boca mas me beijou a testa. Não estou te dando a atenção que você merece, né? A gente estava discutindo a relação e repito, éramos quase desconhecidos. Caso, eu caso, respondeu-me olhando-me nos olhos.

Estava declarado o fim. E fui para casa com um sorriso bobo sabendo que não mais trocaria pelos dele, os lençóis da minha cama. Qualquer um pode reconhecer o receio num trepidar da voz, numa pausa para respiração antes da resposta. Pensar é se dar a possibilidade de retroceder. E o meu pedido era só um velho hábito irônico que eu cultivo, mas que espanta quem o desconhece. E é essa graça, no fundo.

Só fui ter notícias dele novamente depois da quarta feira de cinzas, depois que eu já o tinha visto circulando por aí em outros braços. Mandou-me uma mensagem dessas pelo celular. Pedia desculpas, dizia que não esqueceria as poucas boas horas.

E eu achando tudo muito curioso, respondi-lhe que os momentos efêmeros porém intensos são a matéria de que as coisas que valem a pena são feitas. Um beijo.

E estavam soprados os confetes ao vento.

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