Confetes

Abri a geladeira e não parecia geladeira de homem solteiro. Tinha frutas, as garrafas de água eram limpas e eu fiquei observando pois éramos quase desconhecidos e eu tinha fome. Ri um pouco segurando a porta aberta enquanto o cachorro que tinha fugido do quintal puxava a bainha da minha calça e latia querendo brincadeira e eu lhe dava bom dia, quase íntima das pequenas rotinas matinais daquela casa onde nunca havia estado antes. Por fim, fiz qualquer comentário sobre a arrumação refrigerador e ele me disse que era um cara muito organizado. E lho disse porque, provavelmente, essa era uma de suas maiores vaidades.

Foi aí que eu fechei a porta fria e me recostei nela e fiquei olhando para ele com aquele olhar de quem vai fazer uma pergunta e ele fez um movimento com o queixo para cima que me pareceu significar: diz aí! E eu disse.

-Moço, casa comigo?

Ele que saía da cozinha girou-se assustado de volta com um olhar interrogativo e me estava sendo muito divertida aquela comunicação forjada em pequenos gestos. Eu sei que intimidade em varejo assusta, mas a gente estava se entendendo e isso era fabuloso. Repeti.

-Moço, casa comigo.

Então ele descongelou, me segurou pelos cabelos da nuca de leve, ameaçou me beijar a boca mas me beijou a testa. Não estou te dando a atenção que você merece, né? A gente estava discutindo a relação e repito, éramos quase desconhecidos. Caso, eu caso, respondeu-me olhando-me nos olhos.

Estava declarado o fim. E fui para casa com um sorriso bobo sabendo que não mais trocaria pelos dele, os lençóis da minha cama. Qualquer um pode reconhecer o receio num trepidar da voz, numa pausa para respiração antes da resposta. Pensar é se dar a possibilidade de retroceder. E o meu pedido era só um velho hábito irônico que eu cultivo, mas que espanta quem o desconhece. E é essa graça, no fundo.

Só fui ter notícias dele novamente depois da quarta feira de cinzas, depois que eu já o tinha visto circulando por aí em outros braços. Mandou-me uma mensagem dessas pelo celular. Pedia desculpas, dizia que não esqueceria as poucas boas horas.

E eu achando tudo muito curioso, respondi-lhe que os momentos efêmeros porém intensos são a matéria de que as coisas que valem a pena são feitas. Um beijo.

E estavam soprados os confetes ao vento.

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Diga

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