Correspondência Violada
Querido Márcio,
ainda é fresco a ar da graça de nossa última conversa e talvez por isso eu não consiga me livrar da idéia da recém descoberta vileza dos cajus. Confesso, tenho coisas com cajus, eles me remetem a imagens singelas da minha infância.
Lembro-me do cajueiro grande onde a gente se pendurava no sítio de meu avô, a gente, eu, meus primos, enfim. Ele ficava num barranco pequeno demais para as suas raízes, colado no muro da casa, e a casa se encarrapitava no alto de uma pequena colina que parecia muito maior aos meus olhos infantis. Havia outros cajueiros para dentro das porteiras que levavam também ao canavial, à horta de minha avó, ao pé de urucum onde a gente se melecava de vermelho. Á pitangueira na porta do galinheiro e ao jabuticabal que um dia as formigas consumiram. Havia em meio a tantas plantas e árvores outros tantos cajueiros maiores e mais frondosos. Mas aquele era o mais curioso, se equilibrava faceiro no barranco como um gigante de pés pequenos. E era nele que a gente se empoleirava e era dele que vinha o suco gostoso para o almoço.
Era meu avô quem fazia o suco. Separava as castanhas com jeito para não amargar o sumo. Enrolava as frutas num lenço branco uma a uma e ia espremendo na jarra. Ensinava: sem o lenço, fica com cica. Minha avó juntava as castanhas numa caixinha e dizia que castanha não presta se a gente não põe pra secar. Depois nos perguntava: o que é a fruta, o caju ou a castanha? E a gente respondia em coro porque já sabia da resposta.
Fico pensando se a gente ? a gente todo mundo mesmo- não trata gente como caju. Pega o que está à mão, pronto de cada um, espreme, tira o suco, se empapuça e joga a poupa fora. Se a gente não esquece a castanha no sol secando até que ela fique esturricada e definhe sem sabor. Fico imaginando se a gente não morde o caju só porque preparar a castanha dá mesmo muito trabalho, se a gente tem esse jeito de arrancar a castanha sem amargar o suco.
Ah Márcio, quantas não são as vezes que a gente se atrai pelo cheiro, pela cor e pelo sumo do caju e simplesmente descarta a castanha esquecendo-nos de tão inebriados que na verdade a castanha é que é a fruta?
Ana
© 2005, Ana Mangeon. All rights reserved.
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