Arquivos de March, 2005
Correspondência Violada
Ah Márcio, confesso que nunca havia pensado na vileza das cartas até hoje quando eu liguei aquele monte de números e ouvi um pesado sotaque britânico me dizer: desculpe, esta carta não serve. Não que esteja tudo perdido ainda, não, existe a possibilidade de novas cartas, mas aquele otimismo de outrora se esvai ao pouquinhos e o tempo excessivo vai criando espaço para pensamentos sombrios. Ando tentada a pensar que nem tudo pode dar sempre certo.
Penso também nas malas cheias de planos, novidades e experimentações, e que nada disso devia ser nunca colococa em malas. Malas extraviam.
Penso no ir, no ficar. E em alternativas para o ficar. Quero nenhuma não.
Penso no farol e choro. Penso em Lori e Ulisses nas horas que me sinto sozinha demais com meus receios. Penso em mim e entendo que eu nunca aprendo. Penso em todas essas noites de sono perdidas, já são tantas…
Penso no pensar.
E descubro que é impossível pensar com clareza quando se está morrendo de medo.
Ana
ps: pelo andar da carruagem, eu estarei aqui dia dois para lhe receber e comer pistaches. O lado bom das coisas ruins sempre dá o ar de sua graça, não?
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Extrações
Vai dizer que nunca lhe ocorreu? Nem mesmo quando era pequenininho e ficava brincando com aquele dente pendendo na gengiva? Ou no caso daquele caco de unha remanescente de uma pisada de salto agulha? Ou um espinho encravado na carne do dedão da mão?
Sobrancelha rebelde crescendo entre os olhos? Um pentelho nascendo na celulite da coxa ou um fio branco espetado na divisão dos cabelos? Uma pinta preta ou uma verruga?
Um trevo de três folhas no seu canteiro de azaléias, uma costura começando a se desfazer? Um botão despregado, um cadarço de sapato?
Vai dizer que nunca teve nada que fosse ficando ali, incomodando discretamente, todo dia levando a loucura de mansinho, até que um dia você se revolta, fecha o olho e reza uma salve a rainha e arranca?
Então, foi isso.
Não dava mais para ver você ali colado no meu braço feito esparadrapo velho, aí, eu contei um, dois e três eu lhe arranquei de mim numa única puxada bem forte… Para sentir doer uma vez só.
No commentsAnti-gourmet
Deixo-lhe o gosto doce, para que possa enjoar depressa de mim. Para que eu reste na lembrança, na garganta ardida e sedenta. Deixo-lhe o sabor delicado e árido, o afago, o sabor de beijinhos, o fastio de suspiros.
Sirvo-lhe as sobremesas, sem entrada, sem jantar. Sirvo-lhe todos os mimos e canduras. E omito outros sabores que sua língua não encontra, sonego o bom sal.
Guardo minhas pimentas para quem pode com temperos fortes
No commentsPigmentos
A tez da folha alva,
a superfície intacta,
pede as verdades.
Mas tão sincero, calas.
Surda então, não rogo pragas.
A língua amputada, não faz alarde
O poema é falso, é falsa a vontade
Vera ilusão a que em meu peito arde.
Na linha azul não corre a tinta
que não foi escrita, a palavra omissa
mas nos meus braços, também azuis,
são de vasos, traços.
O pulso forte que era antes enchente
acalma o ímpeto e desanima.
Arterial, o rio bravo. O corte, foz assassina.
Circulam em mim vestígios de um amor pálido:
minha pele branca, córregos de anilina.