Correspondência Violada

Ah Márcio, confesso que nunca havia pensado na vileza das cartas até hoje quando eu liguei aquele monte de números e ouvi um pesado sotaque britânico me dizer: desculpe, esta carta não serve. Não que esteja tudo perdido ainda, não, existe a possibilidade de novas cartas, mas aquele otimismo de outrora se esvai ao pouquinhos e o tempo excessivo vai criando espaço para pensamentos sombrios. Ando tentada a pensar que nem tudo pode dar sempre certo.

Penso também nas malas cheias de planos, novidades e experimentações, e que nada disso devia ser nunca colococa em malas. Malas extraviam.

Penso no ir, no ficar. E em alternativas para o ficar. Quero nenhuma não.

Penso no farol e choro. Penso em Lori e Ulisses nas horas que me sinto sozinha demais com meus receios. Penso em mim e entendo que eu nunca aprendo. Penso em todas essas noites de sono perdidas, já são tantas…

Penso no pensar.

E descubro que é impossível pensar com clareza quando se está morrendo de medo.

Ana

ps: pelo andar da carruagem, eu estarei aqui dia dois para lhe receber e comer pistaches. O lado bom das coisas ruins sempre dá o ar de sua graça, não?
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Diga

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