Falhas Estruturais

Pensava no prédio que caiu a duas quadras de distância de onde eu moro. De um dia para o outro brotaram as rachaduras pelas paredes e não demorou nada para que ele viesse ao chão. Penso que as pessoas fecham os olhos para as evidências da ruína, até que belo dia, ela vem. E todos se fazem de surpresos eximindo-se da negligência, da preguiça de não resolver problemas que nunca se resolverão por si só.

Foi assim, vendo escombros, que eu aprendi que às vezes as casas caem. E que elas nos avisam. E que quase sempre nós preferimos a ilusão da segurança a assumir a consciência do risco.

Ainda não disse, me chamo Pedro, Pedro Cabral da Fonseca. Esse na minha frente é Antônio Menezes da Fonseca. Ao meu lado Aída Cabral da Fonseca. Estamos jantando um jantar que não é bom nem ruim. Eu não gosto de brócolis, como por consideração a Aída que perde seu tempo cozinhando-os no vapor para que eles não fiquem gosmentos. Antônio está estranhamente calado, acho que no fundo ele também não gosta de brócolis. Eu ainda não disse, mas eles são meus pais e agem como se fossem quase sempre. Não hoje. Hoje Antônio está calado e Aída mastiga trincando os dentes. Tudo silencioso e educado.

Antônio e Aída são meus pais. E são meus amigos na medida do possível. Nós, os filhos tentamos manter segredos, eu tenho os meus. Reclamam comigo que eu sou um cara retraído e não falo dos meus problemas, não entendem que meus problemas são meus, por isso assim são chamados. Eles têm os deles e não é que os resolvam sempre. Melhor que fiquem eles com os deles e eu com os meus .

Eu me concentro em outras coisas. Por exemplo, Antônio não sabe que eu sei que ele sai com Catarina todas às sextas feiras quando diz que vai ao futebol. Catarina tem os peitos grandes, Aída não. Eu também sairia com Catarina. Nossa natureza masculina às vezes é repugnante, mas quase sempre eu me perdôo por ser homem também. Eu tenho pena de Aída, mas não consigo condenar Antônio. Catarina é gostosa. Acho que se Antônio soubesse que eu tenho sonhos com Catarina ralharia comigo. Catarina é secretária e não usa calcinhas por debaixo do vestido.

Aída, Aída é forte e doce e também não sabe que eu sei que ela sabe de Catarina. Antônio é meio burro, deixa vestígios por toda parte e Aída é inteligente. Só não é tanto a ponto de não procurar se enganar. Tem horas que eu penso que toda mulher nasce com o dom de acreditar que as traições são transitórias. Eu tenho a impressão que nunca são. Muda o objeto. Eu acho que não existe ser humano que não traia. Veja Norma Alice, a vizinha do 203. Recebe visitas todas as tardes e seu marido volta do trabalho com buquês de flores todas as sextas feiras, acho que ele pede perdão por ser para ela pouco mas ela também não é assim grande coisas. Ela o trai e ele se trai. Pessoas são esquisitas, pessoas se resignam muito fácil. É por isso que eu olho muito e falo pouco. Tenho um pouco de medo de parecer estranho demais qualquer hora.

Antônio e Aída, estão comendo calados, mas eu sei que daqui a pouco alguém vai dizer algo. Eu sei que devo comer mais rápido do que de hábito e deixá-los a sós. Procuro não ser inconveniente como são os filhos nessas horas. Filhos não têm a consciência de que trazem em si a pecha de ser a esperança salvadora de todas as relações que prescrevem com o tempo. Acho que é uma boa hora para eu me retirar, acordei muito cedo, tenho uma desculpa razoável. Não quero que eles saibam que eu sei. Deve causar vergonha a idéia de que meses de dissimulações foram vãos. Antônio respirou fundo, ele quer falar, é minha deixa, acho.

Pai, mãe: me dão licença?

Da janela do meu quarto vê-se ainda os escombros do edifício, parece-me tão derrotado. Quantas casas já não caíram ali antes que viesse assim, tudo de vez a baixo..

Meu discurso pode parecer estranho para um garoto, mas pode ser também que eu não seja mais garoto faz algum tempo. Não sei se pais se dão conta de verdade que a gente cresce. Faço que não vejo, faço-me de bobo. Se ao menos se dispusessem a ouvir as coisas que só nos é permitido revelar nas sessões de terapias que nos obrigam a freqüentar…se ao menos perguntassem. Se ao menos quisessem saber. Eu não sou mais nem menos estranho que qualquer pessoa, e não acho que você seja menos estranho que eu e pode ser que eu não pense muito diferente de seus filhos…Mas eu não sei porque tudo sempre me parece tão óbvio.

Quantas vezes você não colocou reboco novo nas velhas rachaduras? Quantas vezes não se encheu de Aspirinas? Quais são seus paleativos? Até quando sua estrutura agüenta o peso dos seus dilemas? Onde você fixa suas escoras?

Eu estou sofrendo, não se engane com essa minha objetividade. Admirei, calado, a aparição de todas as fendas nas paredes de minha casa. Hoje elas parecem mas vívidas que de costume. Acho que posso ouvi-las respirar agora que Aída chora. Agora que Antônio bate a porta.

Eu tenho essa impressão persistente de que todas as casas um dia caem. Até aquelas que nunca tremeram. Mas talvez eu seja só um moleque amargo e pessimista.

As certezas e as dúvidas essas sim são assim, transitórias. O que fica é a vontade imensa de não ter razão. Mas nada me tira da cabeça que essa casa também caiu.

(publicado em abril/2005 no Patife)
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