Archive for May, 2005

Lascívia.

Talvez mais grave que ser, seja parecer real. Fica a imagem na mente, a revelação inflamada do que se reprime no vagão de carga do pensamento e de repente, o que se jurava então inocente, o sentimento supostamente imberbe, irrompe na forma de sonho, onde não há como se ter controle, como negar. Quando eu me deito e fecho os olhos não há como ser então o desejo coibido.

Nessas horas, o beijo tem mais gosto e mais saliva e os lábios se atrevem por lugares nunca antes desvendados. Dizes coisas indizíveis, censuradas. Dizes coisas não verbais. Falas hálito de café, textura de barba feita anteontem, de cabelo lavado de manha, de camisa passada, desodorante, perfume. E outras coisas, não mencionas mas eu ouço ou adivinho. Engendro tua pele lisa e sem as maculas do sol antes mesmo de aventurar-me às mãos no teu ventre, antes de abrir-te todos os botões a dente. Pressinto sim, teu coração acelerando como o meu muito antes de meus dedos tocarem por trás o teu pescoço e meus polegares pulsarem no mesmo compasso das suas jugulares.

São fortes as cores, são cores de um baseado poderoso, de um Almodóvar. São as carnes – a minha tremula, a tua pronta – numa cena rubra, ou amarela ou da cor de qualquer gelatina quente que se coloque sobre os holofotes. São cúpulas de cetim laranja para as luminárias . E é ainda o ar pesado, úmido de suores, salivas, de roupas molhadas de chuva , de chuveiro. O ar irrespirável empestado de perfume forte. Um lençol de visgo brotando-me do âmago , um rio púbico a correr frouxo e caudaloso pelas coxas, dar de beber a tua sede, a minha. E é também som, remixes de palavras balbuciadas, xingamentos doces, Dan the Automator, Prince, Marvin Gaye e uma canção nova do Chico. E, como não ser, é o tempero, a pimenta, o limão. E o sal, na boca, no corpo; a salina do teu torso se perdendo nas encostas das minhas costas, vapor, maresias. Especiarias em louças exóticas. Teus joelhos, a dobra dos teus cotovelos.

E enfim,bela hora, é catarse. Meu corpo exausto desmoronando sobre seu peito. Corações a compor samba. Silencio. Sujeira.

Eu a me guardar no espelho, a desfazer os nós que te amarravam aos meus cabelos. Teu suor e os rabiscos do teu corpo a te trair e criar raízes no meu colchão. As pegadas de minhas unhas na sua coxa esquerda. Um olho teu fechado querendo sumir.
Um olho teu aberto pedindo replay.

Impressos em púrpura, teus dentes na minha nuca.

A perseverança de uma cicatriz de navalha, profunda, para toda vida.

A transitoriedade de uma tatuagem de chiclete a ser lavada, depois esquecida.

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