Deguste!

-Mel.

Ele declarou que era mel e eu sorri com todos os dentes e ele notou o meu sorriso e comentou em voz alta que era bonito quando eu sorria assim. Sua esposa me pediu que eu repetisse o sorriso, mas era tarde. Todos me olhavam com um misto de curiosidade, graça e embriaguez e teriam percebido que eu corara se os tantos vinhos já não tivessem pintando para sempre minhas bochechas de rosa-choque. Definitivamente mel, repetiu. E a moça loura acrescentou: pêssegos e damascos. Para mim era só mel o gosto do vinho rosado e doce que me escorria pela boca, quase como um licor. Era quase fim de festa.

E eu passara tantas horas rindo de histórias que não me dizem respeito e de mim mesma, de mim, intrusa. De mim, ignorante, completamente ignorante, daquelas matérias graciosas do paladar. Ria-me de mim e deles tão didáticos diante do meu não-saber. Eu era, ali, à mesa, uma criança espaventada na luz de um conhecimento que me era sempre estado tão desinteressante. Eles se divertem porque sabem coisas. Eles sabem coisas que eu não sei e isso é um arrepio bom de tesão que corre pela espinha. Eles falam, falam. Eu elucubro.

Acordo.

Acordo para perceber meu copo cheio novamente de vinho tinto. Para dar-me conta que eles são felizes nessa sapiência desprovida de orgulho, generosa, que não vê pecado na boa refeição comida com talheres descartáveis ou no vinho muito caro servido em copos de plástico muito vagabundos.

Acordo para ver-me ali, de repente tão interessada de tão alheia que sempre fui a tudo isso; aos vinhos, à sopa de lagostins, aos talheres e taças, à vermelhidão de minha face. Ali, tonta e encantada de ver que, sim, se pode comer do bom e do melhor com as mãos. Para ver-me pensando em cheiros e sabores escondidos em todas as coisas do mundo: as coisas escondem gracejos como os vinhos, tenho certeza. Há flores, fumaça, pêssegos, damascos e azeitonas em tudo. Pensando na complexidade dos vinhos e achando lindo. Pensando em mim e nos vinhos e nos achando lindos quando estamos simples e tolos.

Mel. Definitivamente mel!

Mais uma vez sorrio. Eu também sou mel, e agora, sei que o mel não está em mim como não esta no vinho. O mel está no paladar de quem degusta.

Sim, sim! Definitivamente mel! – digo, finalmente.

E ele, profissional na arte dessas coisas de beber bem, fica feliz por saber que eu aprendi alguma coisa. E a gente brinda. Ele não sabe, eu aprendo coisas que não se nem faz idéia de que me estão ensinando…

As revelações me são sempre muito maiores que se pretende que sejam.

Mas eu me faço de boba para guardar segredo.

(Escócia 10/06/2005)

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