Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de August, 2005

Correspondência Violada

Marcio,

Hoje levantei com a sensação de que lhe devia noticias. Desafiei a preguiça, pulei de minha cama e escancarei as cortinas procurado um dia anil e doirado como o de ontem. Não tinha.

Tudo estava assim cinza , tudo plúmbeo. Parece que choveu durante a noite, tudo meio úmido. Muito frio. E, de repente, notei que tem beleza no dia feio, tem graça no sacudir das arvores, nas folhas secas escapando corredias pelo chão. Sim, tem beleza, uma beleza meio triste meio abandonada. Uma beleza de final de filme da sessão coruja.

O DJ da BBC parece que concorda e toca canções melosas dos anos 50.

Disseram-me certa vez, que os animais enxergam em preto e branco, e talvez minha porção animal se manifeste dessa forma. Eu vejo fotografias antigas em toda parte. Nos velhinhos com suas flores e cachorros. Nas meninas novas com sua penca de filhos. Nos carros. Em mim.

Este lugar tem coisas engraçadas. Todas a chaves abrem pro lado contrario. Tenho a sensação de ter entrado no espelho. Os carros vêm em inesperada direção e é maravilhoso poder andar sem culpa pela contra mão.

Aqui tudo parece estar no devido lugar, no entanto. Fica fácil transgredir. Ninguém me reprova, parece que esperam um redentor que vire tudo de pernas pro ar e assim fica tudo igual. Que bobos são, Willian Wallace não vai voltar.

Eles bebem, por que não há diversão, não para seus olhos que não vêem um palmo diante do nariz. O frio é desculpa, mas eu beberia um trago hoje pra esquentar por dentro. Pra aplacar o medo delicado do inverno que logo vem. Pra aquecer de dentro para fora, a alma.

Abri as cortinas, e as janelas e a folhas entram no meu quarto. Eu não fumo mais. Mas acendi um cigarro só pra ver a fumaça dançar com o vento.

Mentira, eu fumo às vezes pra lembrar que a gente sempre pode respirar bem fundo.
E dar um suspiro .

Beijos saudosos.
Ana

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Mal-me-quer

Pudesse negaria a alma
Despiria as roupas.
Despiria a pele.

E seria sua.

Toda.
Nua.
E pura.

Pudesse.
Mas posso não.
.

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Resgates

Uma hora havia de chegar a hora
e eu quero agora somente lhe esquecer.
Não há de ser dorido, nem sofrido
Não há que se fazer esforço.
Vou apagar todos os seus vestígios devagar
Os importantes, os menores, os microscópicos
Varrer suas migalhas da minha casa.
Queimar as fotos, lhe banir, rasgar as cartas.
Mandar trocar as chaves da minha alma.
Começar tudo outra vez
Sem ressentimentos, sem maiores mágoas.
E nem é que eu não lhe ame mais, eu amo.
Mas uma hora havia de chegar a hora
E eu quero agora somente lhe esquecer
Para resgatar, sufocado, quase morto,
O Eu que eu permiti que se afogasse em Nós.

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