Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de September, 2005

Zodiacal

Como ela gostava de brincar com fogo,
amava um Sagitáriano, saia com um Ariano
e tinha um Leonino na manga,
assim para qualquer eventualidade.

A moça adorava provocar incêndios.
Até o dia que se queimou.

E gostou

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Achados e Perdidos

Faz tempo que me perdi de você, amor
Que esqueci seu nome, seu beijo
O tom agudo da sua voz.
Suas mazelas, suas canduras.
Fui ali e não voltei
Ou se voltei, não pude
Ficar.
Não havemos de estar.
Abri uma janela e fugi.
Eu queria era morrer
Mas aconteceu: voei.
E fui voando, voando.
Viciei.

A casa que era nossa, só sua
O amor que era seu, só meu.
A porta da sala, a porta da rua.
Parti. Não resisti.
Não devia, mas eu disse até logo.
Uma, duas, tantas vezes.
Eu disse até logo.
Você entendeu adeus.

Dessa vez não vou voltar
Não vou lhe ver
Não vou me machucar.
O mundo é grande, eu sei.
As paixões parcas
As desilusões doridas
Mas o que você evita por precaução
Eu busco. A dor é também vida.

Aqui, ali, acolá.
No vôo, no mar.
Do outro lado da ponte,
Do outro lado do mundo.

Faz tempo que eu lhe perdi, amor
Mas eu tentei, não me arrependo.

Pobre de você que nunca me encontrou.

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Outonal

Noites que terminam tarde, dias que terminam cedo. O vento. Dizem-me que logo chega o inverno, que eu devo comprar um guarda-chuva, luvas, um cachecol de lã boa. Estoque de vinhos e taças.

Mas eu só quero andar de shorts e rir dos pêlos eriçados, meus mamilos, os lábios púrpura. Tremer de frio, na falta de gozo. Na falta de mãos, ignorar as luvas.

Dizem-me que sem companhia, não se resiste ao inverno. Eu observo sem procurar. Quiçá? A solidão é fria.

Verdade seja dita: por melhor que seja o cobertor eu sempre fico com meus pés de fora.

Não resisto.
Compro-me meias

(Londres – 15/09/2005)

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Perfeições

Seria tudo justo e perfeito
Houvesse para todo fim, um principio
E um meio. Para todo prólogo
Um epílogo. Houvesse para toda
Mão uma luva, para todo som uma
Musica. A todo bom dia se desse
Um sorriso. Para todo favor gratidão.
Para todo tropeço, perdão.

Seria tudo belo e magnífico
Houvesse para todo pôr-do-sol
Um expectador. Para todo poema
Uma musa e um leitor. Para toda saliva
Um beijo ou um sabor. Toda saudade, noticia.
E para todo desejo, malicia.

Para todo temporal, um banho
Ou uma fuga
Para todo sapato, um caminho.
Para todo caminho, uma direção.
Uma rota para todo vôo
E um avião.

Seria tudo doce e tranqüilo
Houvesse para toda escuridão
um farol. Para todo farol uma luz
Para toda luz uma estrela
E um pedido.

Para todo cansaço, um domingo.

Seria tudo outra coisa
Não houvesse tanto medo
Se ninguém se acostumasse
Se ninguém se acomodasse.

Seria tudo contente,
Tudo mais simples
Tudo folguedo
Se para toda pele
houvesse um zíper
E para toda alma,
um segredo.

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Glasgow

Você mente, Ana. Não são os cigarros. É você quem respira compulsivamente esse ar, essa poluição, a fumaça de diesel e marijuana. Inspira e retém os odores, o curry, o suor de axilas, os desodorantes para o ambiente. Você traga o incenso das esquinas.

Você mente, Ana. Não é o tempero. É você que não se contenta com os sabores, os glacês , as batatas. Não, você tem que comer o asfalto, as muradas. Todos os cartazes de todos os bons concertos de jazz. De rock. De musica clássica. Você tem que se empapuçar de vitrines e livros. Todos os bufes ainda são pouco para sua fome antropófaga e você come 100 pessoas por segundo.

Você mente, Ana. Não é o álcool. Não, não é. O pensamento é que lhe entorpece quando você se permite transgredir e transgride.

Você mente, Ana. Descaradamente você mente. Desavergonhadamente você mente.

Você jura que a cidade lhe violenta mas eu sei que você goza.

( Turnberry 01/09/2005)

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