Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de October, 2005

Brazil

Não sei que nome dar a essa sensação de não mais pertencer.

Eu não pertenço a esse chão, a esse calor, a esse ar pegajoso grudado na minha pele. Eu não pertenço a essa cor nas pessoas nem a esse cheiro que emana de seus corpos.

Esses tons, não são mais meus. Encantam-me, mas não reconheço esses sons.

Eu estou feliz, extremamente feliz.

Não me sinto em casa.
Não me sinto familiar.

A rotina já não me desfoca o olhar.

Deslumbro-me com o exótico.

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À desimportância do conteúdo

Nas entrelinhas ficou prometido
que não haveria mentiras.

Se eu tivesse mentido
prometer não mentir já teria sido a primeira.

Sim, beberam no teu copo.
Neste copo que já deu de beber a tantas bocas.

Mas ninguém nunca provou
do sentimento que eu te servi.
.

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Móbile

Eu movo o ar e me movo. Dissolvo-me.
Eu faço parte, integro.
Eu nego a força motriz,
não o movimento.

Eu falo alto demais quando murmuro
Se grito ninguém me ouve
Eu chuto baldes, eu chuto tudo
Esbato-me contra todos os muros.

Eu mudo e não mudo.
Eu invento o que não sou
e o que sou.

Eu moro, eu me assento.
Eu forjo as raízes
e depois as enfraqueço.
Eu corto os cordões
e me aborto.

Eu tenho casa e coisa.
Eu tenho a mala pronta
mas não sei o destino.
Guio-me pelo sexto sentido.

Eu falo muito palavrão
mas eu falo doce.
Eu falo muito de amor
mas eu não amo
nem sou amada.

Eu tenho a insegurança
de quem segue de olhos fechados.
A incerteza da estrada.
A propulsão e a estancada.

Eu conto histórias
que já foram contadas.
Eu tenho jeito para roubar palavras.

Eu tenho tudo
-Não me inveje -
Pois tudo que tenho
não me serve para quase nada.

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Correspondência Violada

Querido Marcio,

Já fui melhor nessa coisa de escrever cartas. Não sei se estou perdendo o traquejo ou se a preguiça tem sido maior. Ou se eu já me sinto tão parte desse lugarzinho lento que acabo acreditando que não há novidade. Talvez, tenha cegado, em fim, para as coisas bobas e cheias de significado. Mas há esperança, amigo: o vento sacode as janelas e o cinco graus durante a caminhada noturna de ontem me lembrava que em breve as tulipas invadirão todosos canteiro. Sinto pena que lhes falte o perfume.

Tem dias que me sinto como no filme, que me sinto em Tóquio (mas sem a sua companhia). Mas tem dias também que me serve rir da rotina. Hoje, por exemplo, e sábado e eu estou de folga. Podia acordar tarde, mas meus olhosse abriram as seis e quarenta e três com o click do interruptor no banheiro. Eu não tentei dormir de novo. Fiquei rindo dos hábitos do meu vizinho. Ele liga a torneira, depois faz barulho de fazer barba, assoa o nariz com força. Depois vem um longo silencio e a descarga. Ai ele sai do banheiro e volta em segundos. Liga o chuveiro. Desliga em 10 minutos. Coloca spray de baunilha no ar e apaga a luz com um novo click. E esse éo sinal de que eu posso tomar banho, finalmente. Todos os dias,a mesma coisa nos últimos 4 meses.

Hoje vou a Glasgow, comprar lembrancinhas para minha sobrinha e chorar diante de todos os cartazes de concertos que eu não vou assistir. Glasgow é traiçoeira, parece que dorme sempre, mas ebule em silencio. Dizem que Edimburgo e muito mais bela e muito mais sincera. Faço planos. As pessoas falam com um sotaque de Trainspotting.
Aye, ele falam um dileto curioso.

Esta carta está se alongando, não quero cansar seus olhos pequenos, amigo. Mas andei pensando na vida, pensando na vida aqui, aí, em mudanças. Recebi um telefonema esses dias daqueles que fazer a gente ter certeza de que nada épra sempre. E é assim que eu respondo aos meus colegas quando falo que estou contando os dias para ir para casa e eles me perguntam: for good? Pra sempre é uma expressão que faz tempo perdeu o sentido pra mim. Eles não alcançam.

Aqui, para essa gente, tudo é para sempre Marcio, tudo. Tudo é plástico, fixo e imutável.

Tudo menos nós, os estrangeiros, que chegamos aqui, nos enchemos de comiseração, ganhamos uma graninha e caímos fora rápido, antes que os cães, as flores, e os lovely days nos contaminem. Antes que todos os trens parem ou todos os cheap flights fiquem caros demais. Antes que os velhinhas nos ganhem com suas scotish pies e cookies e fudges pelo estomago. Antes de comprar um carro velho. Antes de se apaixonar. Antes de ser envolvido pelas canduras do lugar e começar a achar que para sempre e algo muito natural.

Marcio, para sempre é uma pena que ninguém devia ter que pagar.

(Chego em sampa dia 11 de novembro! Prepare o sorvete de pistache!)

Ana

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