Correspondência Violada

Querido Marcio,

Já fui melhor nessa coisa de escrever cartas. Não sei se estou perdendo o traquejo ou se a preguiça tem sido maior. Ou se eu já me sinto tão parte desse lugarzinho lento que acabo acreditando que não há novidade. Talvez, tenha cegado, em fim, para as coisas bobas e cheias de significado. Mas há esperança, amigo: o vento sacode as janelas e o cinco graus durante a caminhada noturna de ontem me lembrava que em breve as tulipas invadirão todosos canteiro. Sinto pena que lhes falte o perfume.

Tem dias que me sinto como no filme, que me sinto em Tóquio (mas sem a sua companhia). Mas tem dias também que me serve rir da rotina. Hoje, por exemplo, e sábado e eu estou de folga. Podia acordar tarde, mas meus olhosse abriram as seis e quarenta e três com o click do interruptor no banheiro. Eu não tentei dormir de novo. Fiquei rindo dos hábitos do meu vizinho. Ele liga a torneira, depois faz barulho de fazer barba, assoa o nariz com força. Depois vem um longo silencio e a descarga. Ai ele sai do banheiro e volta em segundos. Liga o chuveiro. Desliga em 10 minutos. Coloca spray de baunilha no ar e apaga a luz com um novo click. E esse éo sinal de que eu posso tomar banho, finalmente. Todos os dias,a mesma coisa nos últimos 4 meses.

Hoje vou a Glasgow, comprar lembrancinhas para minha sobrinha e chorar diante de todos os cartazes de concertos que eu não vou assistir. Glasgow é traiçoeira, parece que dorme sempre, mas ebule em silencio. Dizem que Edimburgo e muito mais bela e muito mais sincera. Faço planos. As pessoas falam com um sotaque de Trainspotting.
Aye, ele falam um dileto curioso.

Esta carta está se alongando, não quero cansar seus olhos pequenos, amigo. Mas andei pensando na vida, pensando na vida aqui, aí, em mudanças. Recebi um telefonema esses dias daqueles que fazer a gente ter certeza de que nada épra sempre. E é assim que eu respondo aos meus colegas quando falo que estou contando os dias para ir para casa e eles me perguntam: for good? Pra sempre é uma expressão que faz tempo perdeu o sentido pra mim. Eles não alcançam.

Aqui, para essa gente, tudo é para sempre Marcio, tudo. Tudo é plástico, fixo e imutável.

Tudo menos nós, os estrangeiros, que chegamos aqui, nos enchemos de comiseração, ganhamos uma graninha e caímos fora rápido, antes que os cães, as flores, e os lovely days nos contaminem. Antes que todos os trens parem ou todos os cheap flights fiquem caros demais. Antes que os velhinhas nos ganhem com suas scotish pies e cookies e fudges pelo estomago. Antes de comprar um carro velho. Antes de se apaixonar. Antes de ser envolvido pelas canduras do lugar e começar a achar que para sempre e algo muito natural.

Marcio, para sempre é uma pena que ninguém devia ter que pagar.

(Chego em sampa dia 11 de novembro! Prepare o sorvete de pistache!)

Ana

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