Móbile

Eu movo o ar e me movo. Dissolvo-me.
Eu faço parte, integro.
Eu nego a força motriz,
não o movimento.

Eu falo alto demais quando murmuro
Se grito ninguém me ouve
Eu chuto baldes, eu chuto tudo
Esbato-me contra todos os muros.

Eu mudo e não mudo.
Eu invento o que não sou
e o que sou.

Eu moro, eu me assento.
Eu forjo as raízes
e depois as enfraqueço.
Eu corto os cordões
e me aborto.

Eu tenho casa e coisa.
Eu tenho a mala pronta
mas não sei o destino.
Guio-me pelo sexto sentido.

Eu falo muito palavrão
mas eu falo doce.
Eu falo muito de amor
mas eu não amo
nem sou amada.

Eu tenho a insegurança
de quem segue de olhos fechados.
A incerteza da estrada.
A propulsão e a estancada.

Eu conto histórias
que já foram contadas.
Eu tenho jeito para roubar palavras.

Eu tenho tudo
-Não me inveje -
Pois tudo que tenho
não me serve para quase nada.

© 2005, ana. All rights reserved.

Diga

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