Archive for November, 2005
Sabotagem
Relaciono-me com os piores,
os de índole ruim,
os condenados.
Eu beijo todos os bastardos.
Saio com machistas.
Dou pros mal-amados.
Eu me meto com
todos os traumatizados,
os fodidos, os enrolados.
Eu ataco os comprometidos
e flerto com os casados.
Sou mestra em investir
em relacionamentos furados.
Sim, eu poderia encontrar alguém legal,
querer bem a um outro alguém.
Eu poderia tanta coisa – casa,
família, sexo de sexta à noite, anel -
Até mesmo amor eu poderia ter também.
Sim, eu mereço coisa melhor;
elas até que pintam por aí.
É, eu poderia muito bem lhe esquecer.
Mas eu me saboto.
Sarcófagos
Não há de ser imortal, pois não creio que você me deseje solidão.
Não há de ser imortal, pois não creio que você queira que acabe ficando banal. Não sei de lhe contei, o para sempre banaliza as coisas. Não há de ser imortal, porque não há se ser decorativo, porque não há de justificar sua existência somente pelo fato de existir. Não, eu não que lhe amar um amor cinzeiro de mármore, um amor prendedor de porta. Eu quero lhe amar em silêncio um amor ligeiramente incômodo, uma farpa que mais hora menos hora possa ser arrancanda da carne e acabe. Amor que você saiba, nunca duvide, mas nunca se acostume.
Por enquanto, vou esperando sem pressa, sem esperança, até que a espera se dissolva em outras coisas cotidianas menores e talvez mais belas e perca todo o seu sentido. Vou fiando bem-quereres delicados e contaminando o ar com suspiros pueris.
Não há de ser imortal, não há nenhuma razão para que seja.
Por isso, eternizo meu amor com as bandagens da nossa impossibilidade.
No commentsAnsiedade
A ansiedade de uma porta aberta por onde eu não saio e só o vento pegajoso aventura-se a entrar. Eu espero e as horas torturam vagarosas como os trinta segundos que, diz-se, precedem uma morte. Eu vejo imagens em slow-motion. E ouço vozes com ecos. Enxergo em tons de cinza. Ouço meu coração bater insistente dentro do peito. Tremo, suo. Respiro acelerado. Eu sonho impossibilidades de olhos abertos e lábios cerrados.
Algum som menor lhe anuncia e uma revolução se manifesta na minha alma que não sei que nome dar por não ser inventando ainda um nome que traduza a sensação de sentir-se feliz e morto de medo e paralisar com um sorriso tolo colado nos dentes, as mãos molhadas e frias e os joelhos se confrontando num tocar delicado de ossos. Um nome que defina num mesmo momento jóia, pavor, vontade, desprezo e gozo.
Você apressa o passo em minha direção. Cumprimenta-me. Beija-me a face.
(Pudesse eu, lhe roubava do seu corpo.)
Abraço-lhe longa e amorosamente na falta de palavras inteligíveis, neologismos possíveis.
No commentsContradição
Logo eu
que nunca acreditei
que fosse nada assim,
definitivo,
contradigo-me:
Seria bonito
Se para sempre.
Seria perfeito
Se nunca mais.