Sarcófagos
Não há de ser imortal, pois não creio que você me deseje solidão.
Não há de ser imortal, pois não creio que você queira que acabe ficando banal. Não sei de lhe contei, o para sempre banaliza as coisas. Não há de ser imortal, porque não há se ser decorativo, porque não há de justificar sua existência somente pelo fato de existir. Não, eu não que lhe amar um amor cinzeiro de mármore, um amor prendedor de porta. Eu quero lhe amar em silêncio um amor ligeiramente incômodo, uma farpa que mais hora menos hora possa ser arrancanda da carne e acabe. Amor que você saiba, nunca duvide, mas nunca se acostume.
Por enquanto, vou esperando sem pressa, sem esperança, até que a espera se dissolva em outras coisas cotidianas menores e talvez mais belas e perca todo o seu sentido. Vou fiando bem-quereres delicados e contaminando o ar com suspiros pueris.
Não há de ser imortal, não há nenhuma razão para que seja.
Por isso, eternizo meu amor com as bandagens da nossa impossibilidade.
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